10/02/06

É estafado, mas aqui vai: “Eu Sou Dinamarquês!”, por Salman Rushdie

José Saramago, escritor e nobel, vem hoje no “Público” a criticar os cartoonistas, dizendo que estes foram “irresponsáveis”, que “a realidade crua impõe limites à liberdade de expressão”, que deviam ter reconhecido “a susceptibilidade que há em redor destes temas e usado do senso comum”.

Eu gosto – em geral - da escrita do Saramago. Acho o “Memorial do Convento” uma obra prima e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” também. O “História do Cerco de Lisboa” é muito bom, assim como o “Conto da Ilha Desconhecida”. O “Intermitências da Morte” não vale um caracol. No mais, ainda não li.

Isto posto, importa dizer que este é o último homem a poder cascar nos cartoonistas. O “Evangelho Segundo Jesus Cristo” é uma obra-prima, mas é um livro assumidamente blasfemo para a Cristandade. Nele, o JóttaCristo é um homem comum à procura dos prazeres da vida e a procurar fugir a todo o custo do cabrão do Deus-Pai que o quer foder na cruz para sua maior glória. O Jótta tá-se a cagar prá Glória do Pai-Deus que duvida e nega e só mama com os pregos nas palmas, porque o sacana divino não é o Misericordioso do Novo Testamento, mas sim o Javista cruel, vingativo e sanguinário do Velho Testamento, que ali usa e abusa dos seus poderes mágicos e obriga o Jótta a dobrar a espinha. O Jótta não é redentor, mas palhaço em sangueira alheia.

Na altura, a saída da coisa deu Sousa Lara, deu um Abecassis a berrar à porta do cinema e uma saída airosa para Lanzarote. Não deu mortos, escritores assassinados, escondidos, embaixadas queimadas, fatwas de peso padrão-oiro para os assassinos redentores, promessas de virgens, boicotes de fábricas, exportações e países.

E o Saramago até deu Nobel e não teve que andar décadas escondido como Salman Rushdie que ainda hoje não pode sair à rua descansado. Como os Cartoonistas. O Saramago era a última pessoa a poder dizer aquilo que disse. Devia dizer sim: “Eu Sou Dinamarquês!”

Devido à falta de espinha dorsal dos nossos governantes e de certa inteligentzia, a Dinamarca está isolada como se tivesse posto uma bomba e morto milhares em Meca e até um ridículo atroz como um tal de Vitalino Canas, vem botar faladura a comparar como “farinha do mesmo saco” e “ambos irresponsáveis”, os cartoonistas e os manifestantes islâmicos, e para que não houvesse dúvidas até identifica os manifestantes como sendo aqueles que queimaram e mataram.

No meio disto tudo já nos foderam. Já toda a gente vai fazer auto-censura. Nos próximos anos – por essa Europa a fora -, qual é o cartoonista que vai voltar ao Maomé?, Qual é o Saramago que vai fazer outros “Versículos Satânicos”? A nossa “compreensão” e “tolerância” não os apazigua, só os leva mais longe. Eu Sou Dinamarquês e se soubesse desenhar metia aqui o verdadeiro Maomé, sanguinário e putanheiro, a ser enrabado por um Viking Dinamarquês! A Dinamarca Não Se Verga E Jamais Pedirá Desculpa!

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