03/02/06

“La Columna”, de Frida Kahlo, por Emiliano Sapata

Este quadro é o famoso “La Columna” da mexicana Frida Kahlo. Mais do que um quadro, isto é a história de uma vida. Frida, por este quadro e outros ainda mais estranhos foi apelidada de “surrealista”. Frida, mulher de barba rija – e isto não é uma metáfora -, explodiu e mandou-os a todos pró caralho e que de caminho abrissem os olhos e vissem com olhos de ver.

O La Columna não é surrealista. É realista. É um auto-retrato da pintora e da sua vida. E passo a reproduzir um excerto do magnífico fresco mexicano que é o livro “Os Anos Com Laura Díaz” do escritor Carlos Fuentes, onde ele se espoja sobre a Frida e o seu Panzón, o grande muralista Diego Rivera:

“ – Foi em Setembro de 1925, há sete anos. Eu ia de camioneta da casa dos meus pais em Coyoacán, quando um eléctrico se espetou contra nós e me quebrou a coluna vertebral, o pescoço, as costelas, a pélvis, toda a ordem do meu território. Deslocou-se-me o ombro esquerdo – que bem o disfarça a minha blusa de mangas largueironas, não achas? – Bom, fiquei com uma perna estropiada para sempre. Entrou-me um corrimão pelas costas e saiu-me pela vagina. O impacto foi tão violento que me caiu toda roupa, imaginas?, a roupa evaporou-se-me, fiquei ali a sangrar, em coiros e rota. E nessa altura, Laura, aconteceu a coisa mais extraordinária. Choveu-me ouro em cima. O meu corpo nu, roto, jacente, cobriu-se de pó dourado.
Acendeu um cigarro Alas e soltou uma gargalhada de fumo.
- Um artesão levava uns embrulhos com pó dourado na camioneta na hora do espetanço. Fiquei rota, mas coberta de ouro.”

Frida teve uma vida desgraçada, como desgraçados, cruéis e sanguinários são os seus quadros. Na adolescência sofreu esse acidente que a incapacitou para sempre e a obrigou a passar anos engessada na Casa Azul e depois o resto da vida com uma armação de ferro que lhe rodeava o torso todo, do pescoço às ancas, porque a sua coluna vertebral ficou partida em vários lados.

E é isso que se vê no quadro, a coluna estilhaçada e a armação de ferro. E os milhentos pregos das eternas e dolorosas dores que a haviam de acompanhar pra sempre. A pele rasgada e o negro da abertura, revela o vazio do corpo e a negritude da alma. Frida destapa-se e não poupa sequer o bigodaço que aparava diariamente, nem as tetas orgulhosas de bi-sexual assumida e descarada que papava em público a Chavela Vargas.

O seu Panzón não se importava. Tinham feito um pacto de só se traírem um outro com mulheres. O lençol tapa por vergonhas as lesões genitais ensanguentadas que anos mais tarde, em Detroit, lhe haviam de valer um aborto e a perda do desejado filho com o Panzón, com quem viveu um dos amores mais fortes e mais bonitos de que há memória. Mas esse é tema pra outras núpcias. Pra já ficamos no La Columna. Um quadro Realista, porque Surrealista foi a vida dela.

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