26/02/06

A Menina do Capuchinho Vermelho, por Zen

Os contos de fadas têm muito que se lhe diga. Como os mitos ou as lendas, eles não valem pelo seu conteúdo literal, mas na medida em que expressam simbolicamente forças poderosas. É por isso que se tornam imortais.

Bruno Bettelheim foi um dos mais importantes psicanalistas do século passado. Nasceu em Viena em 1903 e tornou-se mundialmente conhecido pelo clássico Psicanálise dos Contos de Fadas. O Porco deixa hoje em primeira mão uma breve síntese, misturada com alguma liberdade hermenêutica, da leitura de Bettelheim da história da Menina do Capuchinho Vermelho.

Bettelheim começa por sublinhar o paralelo entre esta história e a de Hansel e Gretel, uma vez que o tema central é o mesmo: a ameaça de ser devorada. Em ambos os casos, as crianças lidam com as dificuldades e angústias que lhes são provocadas pela necessidade de desistirem do seu afeiçoamento dependente pela mãe. No caso do Capuchinho Vermelho (CV) acrescem os dilemas da rapariga em idade escolar, exposta ao perigo da sedução.

Neste conto temos dois espaços, a Casa da Mãe e a Casa da Avó. Na primeira, CV sente-se protegida pelos pais, é a criança pré-púbere sem perturbações. Mas em casa da avó que é doente e velhinha, CV está indefesa, perturbada e desprotegida perante a ameaça terrível do Lobo. Acontece que CV tem que percorrer o caminho de uma casa a outra para levar o lanchinho à avó doente. Se se mantiver no caminho correcto, explica-lhe a mãe, não há perigo. Mas se desviar está exposta aos perigos da floresta e, em particular, ao temível Lobo.

Apesar de saber que não se pode desviar, CV, sente-se dividida uma vez que reconhece a beleza da Floresta. A Floresta e as suas coisas bonitas – os pássaros, as árvores, as flores, as borboletas,– representa o Principio do Prazer que a faz desejar o que existe para lá do seu mundo protegido e confortável. Quando ela se decide a desviar-se do caminho correcto onde estava segura, segundo a indicação materna, é pois o Princípio do Prazer que vence o conflito clássico com o Princípio da Realidade. Este dilema é bem claro quando o Lobo lhe sai ao caminho e lhe diz:

«Olha como são bonitas as flores à tua roda. Porque não dás uma vista de olhos? Andas com um só propósito e uma tal concentração, como se fosses para escola, enquanto tudo o resto aqui na floresta é tão belo.»

Aqui chegados, creio que não podemos deixar de simpatizar com o Lobo que diz ao CV que a vida vale a pena, que há flores bonitas para serem colhidas na floresta. Claro, sabemos a intenção maldosa do Lobo que quer é comer – literalmente - a CV. Mas ainda assim que importa? Como dizia Nietszche «é preferível a eterna vivacidade à vida eterna». O Lobo é pois o representante do Princípio do Prazer, da sua beleza e dos perigos que lhe são inerentes.

Mas é outro o discurso da Mãe:

«Caminha com cuidado, não saias da estrada. E quando chegares a casa da avó não te esqueças de lhe dar os bons dias e não comeces a vasculhar por toda a parte»

Que chata que é a Mãe… Ela representa a ditadura do Princípio da Realidade, a negação da poesia e da beleza, mas garante a segurança de um caminho sem perigos. Enquanto ética de vida é manifestamente pobrezinho, representa o ideário pequeno burguês do funcionário zelozo das suas obrigações. Obviamente, esta gente não chega a acordar para a vida, a floresta passa-lhe ao lado.

CV, como sabemos deixa-se levar pela conversa sedutora do Lobo. As figuras matriarcais da mãe e da avó são reduzidas à sua insignificância perante o poderoso discurso do Animal que lhe fala à pulsão. CV projecta neste dilema os tradicionais conflitos Edipianos, o desejo de dependência e, ao mesmo tempo, de morte do progenitor – morte simbólica, claro.

O Macho, em contraste, é extremamente importante e a sua influência é decisiva. Nesta história ele aparece repartido por duas formas antagónicas:

- O sedutor perigoso, representado pelo Lobo, que se a vencer/convencer se tornará destruidor da integridade da própria e da avó. O sacana do Lobo, convém não esquecer, quer é comê-las e sabemos que, na sua voracidade, até a velha marcha!

- O Caçador, representação simbólica do pai responsável, forte e libertador.

Bettelheim, nota aqui, e bem, a natureza contraditória do macho com as suas tendências egoístas, associais, violentas e destruidoras (o ID representado pela força dionisíaca do Lobo) e, por outro lado, as propensões generosas, sociais e protectoras (o Ego freudiano, representado pelo apolíneo Caçador).

Outro aspecto que não passa despercebido ao psicanalista austríaco é a conotação sexual desta história. Nem é preciso falar da poderosa metáfora da alimentação, do desejo de comer do Lobo. É notório que no conto, o capuchinho tenha sido oferecido à Menina pela avó. Ele pode ser considerado um símbolo prematuro da transferência da atracção sexual (mais evidente pelo facto da avó ser velha, doente e fraca). A oferenda do capuchinho à menina é uma espécie de ritual fetichista de passagem, o correspondente dos primeiros sapatos altos da jovem, a sua entrada no mundo poderoso da sedução.

Repare-se ainda a importância da cor – vermelho, o vermelho das emoções violentas e sexuais. E sublinhe-se também a importância do diminutivo – capuchinho e não capucho, de modo a reforçar a imaturidade da menina. Ela é pequena demais para lidar com as suas energias emergentes, com as suas tendências «vermelhas». O perigo, para ela, é pois, a sua sexualidade nascente, fonte ambivalente de salvação e ameaça destrutiva. Ela luta dividida entre o sua vontade consciente de fazer o que é seu dever e o desejo inconsciente de triunfar sobre a avó-mãe.

A personalidade ambivalente e dividida de CV é bem diferente da personalidade definida da avó. O Lobo sabe-o quando devora a avozinha num ápice – come-se mas não se saboreia! Já em relação à CV, pensa ele, para consigo:

«Tu, coisinha fofa, belo pedacinho, vais saber muito melhor do que a velha: é preciso proceder com astúcia para apanhar ambas».

E, de facto, o perverso Lobo não devora CV imediatamente porque quer ir para a cama com ela antes. Esta imagem foi representada por pintores como Gustave Doré que, numa das suas ilustrações para contos de fadas, mostra a Menina e o Lobo juntos na cama. Este Lobo tem, portanto, o seu fascínio, o seu quê de atraente, ao ponto de convencer a CV a deitar-se com ele.

Bettelheim continua a sua análise até ao fim, referindo a morte do Lobo pelo Caçador, a libertação da avó que acaba a comer o lanchinho e o facto de CV ter aprendido a lição. Doravante não se deverá desviar do caminho correcto! Mas nós, que conhecemos a natureza ambígua da menina, podemos duvidar. A forma como ela se deixou encantar pelo apelo das árvores, das flores e dos pássaros, o modo como se meteu alegremente na cama com o Lobo deixam um rasto de suspeição. A menina perdeu a sua inocência quando o Lobo se revelou e a engoliu. Quando é retirada do ventre do lobo, renasce para a vida. Mas não renasce a mesma criança dependente que marchara sempre no trilho da segurança. O fascínio da floresta deve ter-lhe ficado bem vivo, embora agora ela esteja mais segura dos riscos que há nos bosques. No final desta história não é mesma do início, mas outra menina que nasce.

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