01/02/06

Nuclear, Sim Obrigado!, por Dervixe Rodopiante

Three Mille Island em 1979, Chernobyl em 1986 e a praga contínua dos Verdes aos berros ao longo das últimas décadas, deram cabo da energia nuclear. O medo da Guerra Fria também ajudou à festa, e o ocidente passou a ficar doente de cada vez que se fala do nuclear. E de um momento para o outro o Nuclear desapareceu. As pessoas – com um trauma psicológico profundo, têm uma reacção visceral ao nuclear e optam mesmo por esconder no mais fundo do inconsciente aquilo que todos sabem, que o nuclear está e estará ali ao virar da esquina.

A França opera 59 reactores nucleares em 21 centrais, produz 80% da sua energia eléctrica através do nuclear e exporta ainda a mesma para Portugal. Portugal bebe da energia nuclear barata francesa. Espanha opera 9 reactores em 7 centrais, duas das quais às portas de Portugal, em Almaraz sobre o Tejo e a menos de 100 km da fronteira. Os EUA exploram 104 reactores, o Japão 56, a Rússia 31, Índia 15, a Suécia 10, Suiça 4, Bélgica 2 e a Holanda 4. No mundo todo, são 31 países a explorarem o nuclear em 443 reactores. E depois temos os reactores nucleares para investigação e aí já falamos de 56 países e mais 284 outros reactores em funcionamento. E nec plus ultra, há que somar mais 220 reactores nucleares em outros tantos vasos de guerra americanos, russos, ingleses, franceses e ucranianos. A Índia além dos 15 reactores civis em funcionamento, tem mais 7 em construção.

Assim, quando dizem “Nuclear, Não Obrigado!” a coisa não soa lá muito bem. O mundo é nuclear e a nossa vizinhança espanhola e francesa também. E já nem vou ao corredor atlântico que nos passa a 12 milhas e por onde passam diariamente alguns vasos nucleares. Almaraz com duas centrais é logo depois da fronteira e arrefece os reactores com a água do Tejo que algumas horas depois entra em Portugal. O Nuclear, Não Obrigado! Começa a soar um bocado como os tristes placards dos municípios que proclamam o concelho livre de armas nucleares, como se em caso de castanhada, alguém tivesse a preocupação de ver se ali a terrinha admite ou não os nukes.

Após esta constatação, surgem mais duas. A primeira é que os Árabes fecharam a torneira, sabem que a mama se acaba e estão dispostos a fazer-nos pagar caro os últimos pingos da teta. A segunda é que o crescimento económico da China e da Índia não é sustentável sem o nuclear deles e do resto do mundo. E dois biliões de sedentos estão em velocidade de cruzeiro. Pará-los só com nukes…

O investimento e desenvolvimento do nuclear é inevitável, até para afastar de vez tecnologias e reactores obsoletos que nos põem a todos em perigo a cada dia que passa. Portugal tem o risco, mas não tem o benefício. Vai de cara alegre a passear de bicicleta ao pé das centrais dos outros.

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