17/02/06

Paranoia, por Mangas

Amesterdan encarou a escada de mogno muito polida com passos incertos que abandonavam os sons ecoados pelo convés. À medida que se aproximava, o swing de Joe Jackson ficava para trás distanciando-se na aparente intranquilidade do oceano. Jumping`Jive e Five Guys Named Moe, embalaram-lhe o espírito na espuma acima da brisa e das nuvens. Quando o seu pai tinha a sua idade, o jazz não era respeitável. Tocava-se em casas de putas e não no Carnegie Hall, dizia-lhe. Toda a gente que o tocava, queria era apreciar pelo gozo do ritmo e apanhar o riff certo no momento certo. Amesterdan despediu-se de terra e regressou ao pacto silencioso com os seus fantasmas.

Três antenas. Três luzes vermelhas no céu enfurecido. Três pontos que piscam para assinalar a altura das antenas aos Spitfire que por lá passam. Ontem à noite, por esta hora, só lá estavam dois. Duas antenas. Duas luzes vermelhas. Aconteceu algo entretanto. Só tu sabes, só tu testemunhaste a mudança no cenário. Bem que eles querem enganar-te, mas não conseguem.

Tripoli, pressentiu os passos do seu velho amigo e Capitão, levantou-se de imediato e encontrou uma posição de aprumo vertical. A farda impecavelmente alinhada ao tronco, o brilho dos sapatos, deu uma vista de olhos periférica para os galões dourados, corrigiu a simetria da pala do boné fechando e mirando alternadamente com o olho esquerdo e depois o direito. Executou o protocolo da saudação e baixou a continência quando Amsterdan retribuiu à sua frente, fixando-o a meio da testa, durante breves segundos.

Tem calma. Mantém-te lúcido, tens algum tempo antes que eles larguem as bombas. E o mais certo é eles mandarem alguns suicidas treinados pelas SS para te apanharem!

Tripoli vacilou quando o encarou de frente. Abraçou-o e naquele instante sentiu um corpo mais estático do que embaraçado perante a aproximação espontânea. Sentaram-se frente a frente, brindaram com uísque aos bons velhos tempos da Academia. Amesterdan contou como perdera o olho direito e ficara com metade do rosto carbonizado durante um ataque dos Messerschmitt a Londres quando estava de licença.

Sobretudo, nada de manobras em falso, nem derrapagens. Economiza o esforço porque vais precisar dele mais tarde. Elimina tudo o que não te fizer falta, tudo que não puder ser arremessado contra eles. Verifica o portão, certifica-te que não entram por lá sem que te apercebas dos teus passos. Apaga as luzes. Acende um vela junto ao assoalhado, na direcção oposta da janela. Fixa uma lanterna à volta da testa com adesivo ou um elástico forte para te orientares na escuridão. Raciocina.

O Imediato de serviço anunciou Churchill. Abarcava-lhe o tronco um imenso kimono verde azeitona com um dragão vermelho estampado nas costas. Gruniu-lhes um à vontade!, e serviu-se do uísque também enquanto Tripoli lhe entregava um cinzeiro para o seu meio charuto. A vida de um Capitão de navio prende-se com o dever solene, disse Churchill. Comandar batalhas e negociar a paz com inimigos implacáveis, sempre que a ocasião o indicar ser melhor para os nossos homens, acrescentou. Representar a pátria com os olhos bem abertos, fez questão de enfatizar. Que o faquir do Ghandi também se armou em esperto, pensava o país que tudo não passava de um sonho, de uma quimera indiana, e depois foi preciso acordá-lo!, concluiu de estocada. Entregou a Tripoli um envelope selado com instruções precisas de rota, manobra e alvo. A Amesterdan agrafou uma medalha ao peito sem aliviar a cinza no charuto entre beiços. Despediu-se com um abraço a ambos e, na velha tradição marítima, desejou a ambos horizontes límpidos. Um silêncio perdurou na sala após a sua saída.

Não interessa como chegaste até aqui ou porque tens todas as saídas cortadas. Nem que alternativas se te apresentaram antes de te terem empurrado para esta batalha. Podes dizer a toda a gente que eles te tramaram e não te deram hipóteses de fugir, mas sabes bem que, fizesses tu o que fizesses, estarias sempre lixado. Querem lá eles saber se foste apanhado em território inimigo entre fogo cruzado...! O que eles procuram é apanhar-te, vivo ou morto! O que eles procuram é cumprir uma missão, terminar o que começaram o mais depressa possível, e de uma forma categórica para que o mundo saiba o que te fizeram. O seu prémio é a tua pele. Por isso, azar o teu se o alvo és tu e estás sozinho. Não peças auxílio, não te vale de nada. E manda a família para bem longe antes que seja tarde demais. Estás só, entregue a ti próprio. Dava-te era jeito que aparecesse por aí o Capitão América, mas como já não tens idade para acreditar em heróis de banda desenhada, desenrasca-te!

Tripoli retirou de uma gaveta alguns discos de jazz que ofereceu a Amesterdan.

Barricar as portas com os móveis. Trancar as janelas. Cartuchos nos bolsos. Podem tentar pela chaminé. Não podes acender a lareira porque denunciaria a tua presença. A solução é cobrir o telhado pelo acesso ao sótão o que significa fazer curtas e rápidas viagens entre as escadas e o local onde te encontras e do qual tens um maior raio de observação para a estrada, para o céu, para o mar, para todo o lado! Precisas de café. A noite vai ser longa e não podes adormecer. Continuam lá os três pontos vermelhos no céu. Ontem eram dois, mas tu estás pronto. Estás encurralado e daqui já não sais, mas eles também por aqui não entram. Vêm por ti e eu tens de estar preparado.

Amesterdan olhou os discos que segurava com as mãos, olhou-se ao espelho no lado oposto da cabine, pensou no envelope pousado sobre a secretária ainda por abrir, e não conseguiu emitir uma única palavra. Tripoli sorriu-lhe, como quando lhe sorria durante os exercícios com fogo real na Academia. Antes de se despedirem, Amesterdan ainda balbuciou entre dentes:

- Se danças com o diabo, o diabo não muda. Quem muda és tu.

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