15/02/06

Salman, O Escriba & Mahound, O Profeta, por Gamba

“(…) No oásis de Yathrib os adeptos da nova fé da Submissão viram-se sem terras e, por conseguinte, pobres. Durante muitos anos financiaram-se através de actos de banditismo, atacando as ricas caravanas a caminho, ou de regresso, de Jahilia. Mahound não tinha tempo a perder com escrúpulos, disse Salman a Baal, nem problemas de fins e meios.

Os fiéis viviam à margem da lei, mas fora nesses mesmos anos que Mahound – ou dever-se-ia dizer o Arcanjo Gibreel? – ou Al-Lah? – andara obcecado pela lei. Entre as palmeiras do oásis Gibreel aparecia ao Profeta e punha-se a despejar regras, regras, regras, até os fiéis só terem vontade de dizer que já chegava de revelações, disse Salman, regras para tudo e mais alguma coisa, se um homem se peida deve voltar o rosto para o lado do vento, e havia também uma regra sobre a mão a utilizar para limpar o rabo.

Era como se nenhum aspecto da existência humana pudesse ser deixado ao acaso, livre. A revelação – a Recitação – dizia aos fiéis quanto haviam de comer, com que profundidade haviam de dormir, que posições sexuais tinham recebido sanção divina, de forma que todos ficaram a saber que a sodomia e a posição de missionários eram aprovadas pelo arcanjo, enquanto as figuras proibidas incluíam todas aquelas em que a fêmea ficasse por cima. Gibreel fez ainda uma lista dos temas autorizados e interditos de conversa, e assinalou as partes do corpo que não podiam ser coçadas por muito insuportável que fosse a comichão que aí se sentisse. Vetou o consumo de gambas, essas bizarras criaturas de outro mundo que nenhum dos fiéis conhecia.
(…)
E no fim da guerra, abracadabra, lá estava o Arcanjo Gibreel a dar instruções aos varões sobreviventes para casarem com as viúvas, por forma a evitar que elas, ao casarem com alguém exterior à fé, ficassem perdidas para a Submissão. Oh, que anjo tão prático, escarneceu Salman no quarto de Baal.
(…)
Oh, aquelas revelações prosaicas, exclamava Salman, até nos foi dito que não fazia mal já sermos casados, podíamos casar atém quatro vezes se tivéssemos dinheiro para isso, bom, como imaginas, os homens ficaram todos contentes com a ideia.
(…)
Só que em Yathrib as coisas não lhe saíram logo como ele quis. Aquelas mulheres de lá puseram-lhe a barba quase branca em menos de um ano. O problema do nosso Profeta, meu caro Baal, é que não gosta de ouvir as mulheres dele responderem-lhe à letra, tanto as mães como as filhas;
(…)
Bom as nossas raparigas já começavam a aderir a esse tipo de coisas, a meter na cabeça sabe-se lá que ideias, por isso, pimba, lá veio o livro dos regulamentos, o anjo desatou a despejar regras acerca do que as mulheres não podiam fazer, começou a empurrá-las de volta para as atitudes dóceis que o Profeta prefere, dóceis ou maternais, caminhando três passos atrás do marido ou ficando em casa sentadas a dar à língua.
(…)
O caso mudaria de figura, queixou-se Salman a Baal, se Mahound tomasse as suas posições depois de receber a revelação de Gibreel; mas não, ele ditava a lei e o anjo vinha a seguir confirmá-la; por isso aquilo começou-me a cheirar mal, e eu pensei: deve ser o odor desses lendários e famosos seres impuros, como é que se chamam, as gambas.”



(excerto salteado de “Os Versículos Satânicos” de Salman Rushdie – na foto: a verdadeira visão do inferno!)

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