17/02/06

War II, por Acid Queen

Como o pessoal parece ter gostado do artigo do Eco citado no post anterior, aí vai a parte que falta. Para quem acabou de chegar, é favor começar por ler o post anterior. Aí vai Eco:

«Naturalmente, todas estas reflexões poderiam ser feitas, do outro lado da barricada, por um muçulmano sensato. A frente fundamentalista não seria imediatamente vencedora, uma série de guerras civis ensanguentariam os seus países culminando em horríveis massacres, também caíriam sobre eles contragolpes económicos, teriam menos comida e ainda menos medicamentos dos poucos que têm actualmente, morreriam como moscas. Porém, se partirmos do ponto de vista de um choque frontal, não devemos preocuparmo-nos com os problemas deles, mas com os nossos.

Voltando, pois, ao Oeste, criar-se-iam dentro das nossas fileiras grupos filoislâmicos, não pela fé, mas por oposição à guerra, novas seitas que negariam optar pelo Ocidente, seguidores de Gandhi que se sentariam de braços cruzados e recusariam colaborar com os seus governos, fanáticos como os de Waco que começariam (sem serem fundamentalistas muçulmanos) a desencadear o terror para purificar o Ocidente corrupto. Mas não é imprescindível pensar só nestas minorias. Estou a pensar na maioria.

Aceitariam todos a redução de energia eléctrica, sem poder recorrer sequer às lâmpadas de petróleo? O obscurantismo fatal dos meios de comunicação e não mais de uma hora de televisão por dia? Andar de bicicleta em vez de automóvel? Cinemas e discotecas encerrados, fazer bicha no McDonald's para ter a ração diária de uma fatia de pão de sêmea com uma folha de alface? Resumindo,o fim de uma economia próspera e de esbanjamento? Imaginemos o que importa a um afegão ou a um palestiniano viver em economia de guerra, para eles nada mudaria.

E para nós? Que crise de depressão e desmotivação colectiva enfrentaríamos? Estaríamos dispostos a aceitar o apelo de um novo Churchill que nos prometeria sangue e lágrimas? Se nós italianos, depois de 20 anos de propaganda fascista sobre a nossa missão civilizadora, a certa altura estávamos encantados por perder a guerra desde que cessassem os bombardeamentos! É certo que esperávamos em troca a chegada dos norte-americanos bons com as suas rações, enquanto que agora esperaríamos os serracenos maus que matariam os padres e os frades e poriam um véu nas nossas mulheres, mas estaríamos tão motivados de forma a não aceitar qualquer sacrifício?

Não se formariam nas ruas da Europa cortejos de oradores esperando desesperados e passivos o Apocalipse? Temos admirado a resistência e a energia patriótica dos norte-americanos depois da tragédia de 11 de Setembro, porém, apesar de toda a indignação e solidariedade que sentem, continuam a ter o seu bife do lombo, o seu automóvel e, quem se atreva, as suas linhas aéreas.

E se a crise do petróleo provocasse um apagão, a falta de Coca Cola e do Big Mac, a visão dos supermercados desertos com apenas uma lata de tomate ali e uma bandeja de carne com o prazo de validade caducado aqui, como vimos em alguns países do leste europeu em momentos de máxima crise? Até que ponto continuariam a identificar-se com o Ocidente os negros do Harlem, os deserdados do Bronx, os chicanos da Califórnia, os caldeus do Ohio (sim, existem, eu vi-os, com os seus vestidos e os seus rituais)?

O Ocidente (e os EUA mais que ninguém) fundaram a sua força e a sua prosperidade acolhendo em sua casa gente de qualquer raça e cor. Em caso de confronto frontal, será que aguentariam esta fusão?

E, por último, que fariam os países latino-americanos, onde muitos, sem serem muçulmanos, criaram sentimentos de rancor em relação aos gringos, ao ponto de, mesmo depois da queda das torres, haver quem sussurre que eles estavam a pedi-las?

Resumindo, a guerra E/O poderia muito bem mostrar um Islão menos monolítico do que se pensa, mas logo veria uma cristandade fragmentada e neurótica, onde pouquíssimos se apresentariam como candidatos a novos templários, ou seja, os "kamikaze" do Ocidente.

Eu não estou a inventar estes cenários de ficção científica. Há 30 anos, embora sem prever uma guerra total, mas apenas um apagão acidental, Roberto Vacca idealizou cenários apocalípticos como estes na sua obra "Medioevo prossimo futuro".

Repito: tracei um cenário de ficção científica e, naturalmente, espero, como todos, que não se torne realidade. Mas fi-lo para dizer o que, raciocinando com lógica, poderia ocorrer se estalasse uma guerra E/O. Todos os incidentes que previ derivam da globalização e, saliento, os interesses e exigências das forças em conflito estariam estreitamente entrelaçados, como já estão, numa meada que não se pode dobar sem destruir.

O que significa que, na era da globalização, uma guerra global é impossível, isto é, levaria à derrota de todos.»
Extracto do artigo de Umberto Eco, Cenários da Guerra entre Civilizações

Sem comentários: