16/02/06

WAR!, por Acid Queen

Umberto Eco é um dos mais geniais escritores e ensaístas contemporâneos. Vale sempre a pena ler as palavras do mestre, mas agora que está tudo em polvorosa por causa do conflito de civilizações, voltei a um texto dele que queria partilhar com a malta daqui do Porco. Parece-me profético, foi escrito na altura do atentado às torres e ganha agora actualidade. Não é nada doutrinário, apenas imagina cenários de guerra - um exercício de ficção científica, como ele diz - no caso da previsão do Huntington do Choque das Civilizações se concretizar. Por agora deixo-vos apenas parte do artigo de Eco intitulado Cenários da Guerra entre Civilizações . Se queiserem saber mais e discutidas as pistas que ele lança aqui, voltarei a deixar-vos o resto do artigo. Aí vai Eco:«(...)Voltemos, pois, a delinear o choque frontal; ou seja, a guerra E/O. Em que se diferencia este choque dos confrontos do passado? No tempo das cruzadas, o potencial bélico dos muçulmanos não diferia muito do dos cristãos: espadas e máquinas de assédio estavam à disposição de ambos. Hoje, o Ocidente tem vantagem em relação à tecnologia de guerra.

É verdade que, nas mãos dos fundamentalistas, o Paquistão poderia usar a bomba atómica, mas quanto muito conseguiria arrasar, por exemplo, Paris e imediatamente as suas reservas nucleares seriam destruídas. Se um avião norte-americano caísse, construiriam outro: se caísse um avião sírio, teriam dificuldades de comprar outro ao Ocidente.

O Este arrasa Paris e o Oeste lança uma bomba atómica sobre Meca. O Este difunde o botulismo por correio e o Oeste envenena todo o deserto da Arábia, como se faz com os pesticidas nos imensos campos do Midwest, e até os camelos morrem. Estupendo. Também não duraria assim tanto, quando muito um ano; depois, todos continuariam com as pedras, mas eles sairiam a perder.

Com uma ressalva: há outra diferença em relação ao passado. No tempo das cruzadas, os cristãos não necessitavam do ferro dos árabes para fazer as espadas, nem os muçulmanos do ferro dos cristãos. Agora, pelo contrário, até a nossa tecnologia mais avançada vive do petróleo, e quem tem o petróleo são eles, pelo menos a maior parte. Eles sozinhos, sobretudo se lhes bombardeiam os poços, não o podem extrair; mas nós ficamos sem ele. A não ser que se lancem de pára-quedas milhões de soldados ocidentais para conquistar e vigiar todos os poços, mas nessa altura seriam eles que os fariam ir pelos ares, e além disso uma guerra terrestre, nesses países, não é tão fácil.

O Ocidente teria, portanto, de restruturar toda a sua tecnologia para eliminar o petróleo. E visto que até hoje não conseguiu fazer um automóvel eléctrico que ande a mais de 80 quilómetros por hora e que leva uma noite inteira a recarregar, não sei quanto tempo demoraria este reconversão. Mesmo sem contar com a vulnerabilidade das novas centrais, seria preciso muito tempo para propulsar os aviões e os tanques, e fazer com que as nossas centrais eléctricas funcionassem com energia atómica. Além disso, teria de se ver se as Sete Irmãs estariam de acordo. Não me espantaria que as empresas petrolíferas ocidentais estivessem dispostas a aceitar um mundo islamizado desde que continuassem a obter lucros.

Isto não termina aqui. Nos bons velhos tempos, os sarracenos estavam de um lado, para além mar, e os cristãos de outro. Se durante as cruzadas, os árabes (quem sabe disfarçados) tentassem erigir uma mesquita em Roma, seriam degolados e não voltariam a tentar. Hoje, em contrapartida, a Europa está cheia de muçulmanos que falam os nossos idiomas e estudam nas nossas escolas. Se já hoje alguns deles se aliam aos fundamentalistas do seu país, imaginemos o que aconteceria se tivéssemos uma guerra E/O. Seria a primeira guerra com um inimigo albergado em nossa casa e assistido pela segurança social.

Mas, atenção, o mesmo problema colocar-se-ia no mundo islâmico, que tem em sua casa indústrias ocidentais e, inclusivamente, enclaves cristãos como a Etiópia. Como o inimigo é mau por definição, damos por perdidos todos os cristãos do outro lado do mar. Guerra é guerra. Eles são desde o princípio carne para canhão. Haveremos de os canonizar a todos, mais tarde, na Praça de São Pedro.

E o que faremos no nosso país? Se o conflito se radicaliza mais do que o devido, e caírem outros dois arranha-céus, ou mesmo São Pedro, termos uma caça ao muçulmano. Uma espécie de noite de São Bartolomeu ou de Vésperas Sicilianas: apanha-se qualquer um que tenha bigode e uma pele não excessivamente branca e degola-se. Trata-se de matar milhões de pessoas, contudo a multidão ocupar-se-á disso sem necessidade de molestar as forças armadas. Naturalmente, teria de se ver se também se degolaria um árabe cristão, ou um siciliano que não tenha olhos azuis de normando, mas somos tão politicamente correctos que no bilhete de identidade não figura se somos cristãos ou muçulmanos e, além disso, há que desconfiar também dos europeus ruivos que se tornaram infiéis.
Como já se disse na guerra contra os albigenses, de momento matamo-los a todos, e depois Deus reconhecerá os seus. Por outro lado, não nos podemos arriscar a fazer uma guerra planetária e permitir que fique em nossa casa um único fundamentalista, que depois pode vir a actuar como "kamikaze".

Poderia prevalecer a voz da razão. Não degolamos ninguém. Mas até os norte-americanos, tão liberais, no princípio da II Guerra Mundial recolheram em campos de concentração, embora com muita humanidade, todos os japoneses que tinham em casa, embora eles tivessem nascido ali. Portanto (e sempre sem fiar fino), localizamos todos os muçulmanos possíveis - e se, por exemplo, forem etíopes cristãos, o que faremos com eles, Deus reconhecerá os seus - e pomo-los em algum sítio. Onde? Com a quantidade de extracomunitários que andam pela Europa, para construir campos de prisioneiros seria necessário um espaço, organização, vigilância, comida e cuidados médicos insustentáveis, sem contar que esses campos seriam bombas que rebentariam com o simples facto de juntar uns milhares, e que não se podem fazer campos para grupos de quatro.

Ou, se não, apanhamo-los a todos (não é nada fácil - mas ai de nós se ficar um único que seja! - e há que fazê-lo depressa, de uma só vez), carregamo-los a bordo de uma frota de barcos mercantes e descarregamo-los... Onde? Dizemos: "Perdão, senhor Kadhafi; perdão, senhor Hussein, não se importaria de ficar com este carregamento de três milhões de turcos que estamos a tentar expulsar da Alemanha?" A única solução seria a dos traficantes de imigrantes: atirá-los ao mar. Milhões de cadáveres flutuando no Mediterrâneo. Gostaria de ver que governo se atreveria a fazê-lo, seria muito pior que os desaparecidos, até Hitler massacrava a pouco e pouco e às escondidas.

Como alternativa, visto que somos bons, deixamo-los tranquilos em casa, mas atrás de cada um pomos um agente policial a vigiá-lo. E onde encontramos tantos agentes? Recrutamo-los entre os extracomunitários. E se acontece como nos Estados Unidos, onde as companhias aéreas, para poupar, deixavam que os imigrantes do terceiro mundo fizessem o controlo nos aeroportos e, depois, achavam que eles não eram de fiar? »
Extracto de Umberto Eco, Cenários da Guerra entre Civilizações

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