10/03/06

A Desaparecida de Ford, por Mangas

Image hosting by Photobucket
Quando a Porta se nos abre, vemos um homem a cavalo que regressa a casa três anos após fim da guerra civil. O filho pródigo beija a cunhada respeitosamente na testa que o recebe de olhos fechados. Ford orquestra nesta cena, um notável jogo silencioso, expresso na reverência de um beijo que descobre o véu sobre um profundo sentimento de amor que existiu ou ainda existe entre ambos. Talvez esteja explicada a razão de uma tão longa ausência de casa após o final da guerra porque, no dia seguinte, quando chegou demasiado tarde para impedir o massacre, é o nome de Martha e não de Debbie que ele suspira entre dentes quando se depara com as cinzas da família na casa incendiada. A partir deste momento, o regressado que nem sequer à rendição apareceu, arde por dentro, não contemporiza com juramentos à lei e não mais quer ser chamado de “tio” por um meio índio adoptado pelo irmão, agora morto pelos índios. Ethan, tem o seu sabre e não está para fazer dele um arado. O tempo não é para orações, mas de Améns rápidos e determina-se a vencer na vingança o que perdeu no amor primeiro, e na guerra civil depois.

A vingança e o ódio podem ser armas poderosas. Ethan é o instrumento da morte que serve ambos e que, sem grande alternativas, pelo meio vai descarregando com brutal violência uma e outro - desde a matança dos bisontes, passando pelos disparos na testa do índio com os olhos arregalados, até ao momento em que retira o escalpe a Scar já morto. E Martin, o mestiço, rapidamente percebe que quando encontrar o bando de Scar, Ethan, na sua fúria cega, não hesitará em matar também Debbie que considera desonrada. Nunca os olhos do Duke foram tão sombrios e venenosos como os de um cão raivoso. Há ali dor a latejar e complexidade que não se explica, porque se sente apenas. Como uma cicatriz que arde na carne, como se a alma estivesse em ruínas, ou à procura de uma paz que, lentamente, ano após ano, se afasta de qualquer alcance.

E no clímax final, Debbie (uma jovem e belíssima Natalie Wood em ascensão), também percebe que não é para a embalar nos braços, como costumava fazer, que o tio vem. E corre. E foge. E Ethan corre atrás dela para a gruta. E Martin corre atrás de Ethan tentando desesperadamente demovê-lo de matar Debbie. E Debbie fica encurralada entre a rocha e aqueles enormes ombros de armário do Duke. Apenas a areia em seu redor. E o Duke agarra-a pelos ombros e levanta-a da terra como se fosse uma boneca de penas, como há cinco anos atrás na noite anterior ao massacre. E ela, encurralada, debate-se por breves instantes, com o medo e o terror estampado no olhar. E o Duke olha-a nos olhos, desce-a à altura da redenção, envolve-a com os braços, pega-lhe ao colo e com a voz de pai que lhe podia ter sido, diz-lhe:

- Let`s go home, Debbie.

João Bénard da Costa, citando o crítico J.A Place, diz que como em outros filmes de Ford, a mitologia grega está aqui presente e que o realizador que em plena época da caça às bruxas comunistas um dia se apresentou à Comissão McCarthy como: «My name is John Ford and I make westerns.», teria dado ao Monument Valley o papel que Homero deu ao mar, na Odisseia. Eu sou apenas um apaixonado compulsivo e sem história e para mim, a Desaparecida é a história de Ethan Edwards, um homem racista, perdido na vingança pelo amor a uma mulher que, paradoxalmente, persegue os seus propósitos com a ajuda de um mestiço que o salva pela redenção do amor a outra mulher - Martha a cunhada amada e Debbie, a sobrinha querida. Levou-lhes a ambos, cinco anos, tempo demasiado para o que, ainda assim, regressou ao lar e constituiu família, mas pouco tempo para o que se habituou à solidão deslocada de uma vida como uma ferida aberta. Por isso se lhe fecha a Porta.

Sem comentários: