07/03/06

A infância e os seus problemas: o caso “Noddy”, por Automotora

Foi publicado aqui recentemente um post sobre o Bettelheim e a sua análise das relações do Lobo Mau com o Capuchinho Vermelho que, confesso, não entendi perfeitamente. Há ali qualquer coisa errada, embora não saiba bem identificar o quê; como se fosse um erro de paralaxe. Há textos que têm sobre mim esse efeito. Para mais, irrita-me especialmente a abordagem psicanalítica dos problemas sociais, bem como o uso constante das ferramentas freudianas de análise dos comportamentos, como que para os desculpar, ou relativizar.

Na estante de documentários que tenho em casa, em DVD, existe uma série que retrata bem essa realidade dos comportamentos desviantes, de forma fria e sem a “muleta” das análises desculpantes. É a colecção do “Abram Alas para o Noddy”, no qual podemos acompanhar o dia a dia de um menor no País dos Brinquedos. A câmara, qual bisturi afiado, vai escavando por debaixo do verniz de um cenário bucólico, sem sombra de mácula aparente, revelando surpreendentes e amargas situações de podridão social que faz parecer a Cidade de Deus, do Fernando Meireles, um filme de desenhos animados.

Um desses documentários, intitulado “Noddy e os Muffins Desaparecidos” começa com o desaparecimento de uma espécie de tarte de morango que esse rapaz, o Noddy, tinha deixado no parapeito da janela, a arrefecer. O miúdo foi então denunciar o caso ao policia, o Senhor Lei. O que é surpreendente é que este não só elaborou auto de denúncia (lembramos que era um simples bolo…), como aceitou que o Noddy o acompanhasse nas investigações, contra todo o bom senso. Isto, para além da óbvia falta de coordenação das investigações por parte das autoridades judiciais, diz muito do estado da justiça naquele País e do seu estado de anomia em geral. É claro que sem esses cuidados processuais, a investigação foi totalmente inepta. Seguimos o olhar da câmara e simplesmente não acreditamos nos nossos olhos! Quem quer que conheça aquela cidade, e os restantes documentários estão aí para o demonstrar, sabe que roubar produtos alimentícios é a especialidade de dois delinquentes: o Marrafico e o Sonso. Pois não foram eles, Santo Deus, que roubaram cones de gelados à Gata Rosa e bombons à Boneca Dina? Acontece que a ninguém ocorreu, no decorrer das investigações, que poderiam ter sido aqueles a praticar o presente acto malfazejo. Acabam por chegar a essa conclusão no fim, num desfecho dramático, totalmente desproporcionado em relação aos valores jurídicos em causa.

Mas importa aqui sobretudo analisar o comportamento da criança de que falávamos, o Noddy. Pois que faz ele? Pura e simplesmente, no decorrer das investigações, lança suspeitas sobre o Orelhas, nada menos do que o seu mentor e amigo de longa data, aquele que sempre o apoiou, que sempre lhe deu ajuda nas horas dificeis, que sempre foi para si um verdadeiro avõ. Aceita mesmo provar um bocado de uma tarte que o Orelhas está a comer para confirmar se aquela é, ou não, a sua. O Orelhas, que já o conhece, portou-se com bonomia esperada. Mas foi constrangedor ver aquele pequeno rapaz a portar-se dessa forma… Que o fizesse com a macaca Marta, como veio também a acontecer, enfim…, é que a macaca também tem alguns problemas comportamentais. Como se costuma vulgarmente dizer “a macaca não bate bem da bola”.... Mas com aquele ancião, um senhor respeitável, cordato, já com uma certa idade e a quem custa locomover-se? É patente que tudo isto resulta de uma educação desestruturada do miúdo, resultando num défice de valores morais sólidos. É, aliás, estranho, que uma criança como ele, que não terá mais do que oito, nove anos, viva sozinho, sem qualquer acompanhamento por parte da segurança social ou de comissão de menores. Inclusive, e isto deixou-me pasmado, conduz um taxi, um automóvel, sob o olhar complacente, e mesmo cúmplice, das autoridades e da comunidade, que o explora. Que fazer? Invocar o ID freudiano, como fez o Bettelheim? Os complexos de Édipo e de Electra? O complexo do raio que o parta? É isso que vai fazer o Betleheim, no Tribunal de Menores, quando o miúdo, um dia, fatalmente, escavacar a cabeça do Orelhas com uma picareta? Não importaria antes actuar de forma célere, conduzindo o rapazinho para a Casa do Gaiato, por exemplo, ou para uma familia de acolhimento? A avó do Capuchinho Vermelho não quereria aceita-lo em casa, contribuindo assim para aplacar, de certa forma, as pulsões sexuais da neta? Isto são questões que, enfim, ficam aqui para reflectirmos todos.

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