27/03/06

La Dolce Vita, de Federico Fellini, por Salmanazar

O primeiro plano do Dolce Vita mostra-nos umas paredes em ruínas, sobre as quais voa um helicóptero que leva pendurada uma estátua gigante de um Cristo Redentor. Logo atrás segue um segundo helicóptero com a cobertura dos paparazzi. Decadência e modernidade. A partir daí acompanhamos o abraço aéreo do JC a voar sobre os subúrbios em construção de Roma, passamos por penthouses do jetset que nos saúda com beldades de piscina e terminamos na monumental Praça de São Pedro no Vaticano. Pedra voa sobre pedra e pousa em pedra com nome de pedra.

Esta famosa cena inicial de um simbolismo esmagador, dá o mote a todo o filme. A partir daí Fellini é impiedoso. Os sucessivos planos e cenas arrasam tudo e todos. Ninguém sai bem da fotografia. Minto, a Anita Ekberg - o mais portentoso par de mamas da história do cinema - sai muito bem.

Mais do que o filme, toda gente conhece a expressão italiana “La Dolce Vita”. E ao contrário do que possa parecer não é o filme que se inspirou na expressão popular ou linguística, mas que ao invés a originou. Hoje a expressão tem divulgação e significado mundial e entre nós até centro comercial dá. Para o Fellini a expressão visava retratar a decadência e imoralidade da alta sociedade. Desligada do filme que a originou, a expressão ganhou vida própria e hoje já não se liga a decadência e imoralidade, mas sim a gozo, saber e prazer de vida.

Além da expressão popular, o La Dolce Vita deixou-nos a imagem lendária, da decotada Ekberg em vestido de noite a passear no meio da Fontana di Trevi. Graças ao filme e à expressão romântica e langorosa proclamada por essa cena, ainda hoje os carabinieri se vêm à nora para controlar as turistas que em Roma têm que dar uma de Anita na Fontana da dita.

No filme, de 1960, Fellini pega em Marcello Mastroianni e na Anita Ekberg e pôs-se a filmar a high society sob o olhar cínico e mordaz do papparazzi Mastroianni que pelo meio vendeu a alma ao diabo. A nata italiana que tinha aberto as suas penthouses, castelos e casas de luxo ao Fellini para se expor por completo, não gostou do retrato Dolce Vita e sentiu que também tinha vendido a alma ao diabo.

O pós filme foi o cabo dos trabalhos para o mestre que se viu atacado pela nata que o acusou de mentir, falsear e deturpar e de os ter enganado e traído. As altas esferas artísticas e intelectuais da lazio não saem bem da foto, retratados como parasitas sociais, que nada mais fazem do que cultivar a sua própria decadência. La Dolce Vita…

O filme foi nomeado para quatro Óscares e miseravelmente apenas ganhou o do guarda-roupa, quando até a boa da Anita valia era pela parte que não estava vestida. Mas poucos filmes como este tiveram uma repercussão no imaginário e na linguagem internacional. É que além da Dolce Vita, da Fontana di Trevi, da procura do glamour nas esplanadas da Via Veneto, a própria expressão de “papparazzi” surge daqui. Paparazzo é uma das personagens do filme e o que ele faz já vocês adivinharam! O jornalismo, a televisão e a rádio também não saem bem da fotografia.

O filme é actualíssimo na sua critica e retrato assassino. Obra-prima absoluta, imagens e cenas de uma força imorredoira, mensagens poderosas encasquetadas no imaginário mundial, que mais pode um realizador ou um filme querer? Ah, e o guarda-roupa também não era mau!

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