21/03/06

«A Lamentação Pelo Cristo Morto», de Giotto di Bondone. Por Francis Presunto

A arte e a religião supõem a existência de dois mundos: um real e um suposto, um profano e outro sagrado, um terreno e outro celestial, um real e outro representado, um físico e outro alegórico. De Platão a Santo Agostinho, os mundos apresentaram-se separados e praticamente incomunicáveis. Restava o êxtase ou a revelação, ambas dependentes da condescendência providencial. A comunicabilidade era descendente e exigia, para o mundo românico, uma observância moral. A arte era doutrinária e ortodoxa, fixista, tornava visível o mundo do além e ordenava o mundo histórico em duas categorias essenciais. Pecado e Virtude opunham-se na mesma medida em que o Inferno se contrapõe ao Paraíso. Corpo e Espírito, Exterior e Interior, Sombra e Claridade serão outros termos em que esta visão se pode desenvolver. Os mundos românicos eram incomunicáveis.

A sensibilidade gótica preanuncia uma revolução que se consumará na Renascença e que será, desde então, o principal problema filosófico, estético, histórico e político da civilização ocidental. Conciliar os mundos, a carne e a alma, o efémero e o eterno, religá-los.

Giotto di Bondone (1267 – 1337) foi o primeiro artista a unificar os mundos. Giotto, comtemporâneo de Dante e representador de S. Francisco de Assis, gozou de grande fama em vida e antecipa em muito os valores formais do Renascimento: corpos sólidos, sentimentos humanos, espaços reais, tratamento da perspectiva, torna contemporâneos os ambientes, procurando os temas no mundo latino e libertando-se definitivamente da tradição bizantina e oriental. Teve profunda influência no panorama artístico italiano e europeu, dando origem a inúmeros seguidores e escolas regionais.


A minha obra preferida de Giotto é «A Lamentação Pelo Cristo Morto», fresco pintado em Pádua nos inícios do século XIV a encomenda de Enrico Scrovegni. A dor perpassa no rosto de todas as personagens, é aliás o único traço comum entre os dois mundos: o celestial e o terreno, os anjos e os humanos choram a morte de Jesus de Nazaré. Os gestos são teatrais e eloquentes, os sentimentos definem o eixo conceptual deste fresco. Os mundos unem-se na dor partilhada pela morte de Cristo. Choram os anjos e choram os homens. O sacrifício de Cristo tornou comunicáveis os mundos, evitando o absurdo do sofrimento gratuito. A dor torna-se caminho de virtude e assim ma nova moral se confirma: a da renúncia, a do sacrifício, a da apologia da dor e do despojamento anunciados por S. Francisco de Assis.

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