16/03/06

O Bitó E O Ti Cabierra, por Morsa

Naquele dia eu já sabia que vinha lá o Ti Cabierra. A minha mãe tinha-me avisado e sabia ao que vinha o capador. Sim, porque o Ti Cabierra era o Capador da aldeia. No vale e arredores, era o velho Cabierra, o capador de serviço e não havia reco que lhe escapasse.

O capanço a que vinha, era o do meu Bitó. O Bitó era um leitãozinho rosado de poucas semanas, com o qual jogava e corria pelo quintal a fora, até a minha mãe me chatear que já estava a rebentar os bofes ao bicho. Não era fácil agarrar o Bitó, mas nisso estava a piada da perseguição. O Bitó guinchava, grunhia e corria e até lhe pender a língua de lado. O porco rebentava, mas eu divertia-me que nem um doidinho.

Chegada a idade e depois de tanta brincadeira, julgava eu que os meus pais veriam o Bitó pelos meus olhos e o suíno rosado e brilhante não iria pingar na chaminé ou descansar na salgadeira como a restante família. Engano meu, o que me deram a escolher foi comê-lo como leitão avantajado ou poupá-lo para engorda, o que implicava chamar o Ti Cabierra. A escolha foi minha e por isso ali estava o Ti Cabierra, convencido eu, de que aquilo em nada iria afectar a continuação da correria e da brincadeira.

“ - Atão o bicho? Ondé que está o Porco? Perguntava de enfiada o Ti Cabierra mal chegado ainda e já tirando pra fora a ferramentaria do saco de serapilheira que trazia às costas. Como não lhe respondi e me viu de lágrima ao canto do olho, o Ti Cabierra virou-se para a minha mãe e perguntou-lhe pelo paciente.

O Ti Cabierra foi ao curral e num abrir e fechar de olhos estava o Bitó atado por um pernil traseiro e a ser puxado pelo calejado velho. Assim manietado, o Tó foi arrastado a chiar em altos berros para o terreiro. O bicho adivinhava os passos seguintes, até porque eu choramingava da plateia, mas nada podia fazer. O poder e o riso escarninho, estava nas mãos do capador, que naquele momento já pendurava o leitão por uma perna e procurava prender-lhe a cabeça entre os joelhos, para com a outra lhe sacar os tubaros.

Mas ali, estava o meu Bitó, leitão ginasticado e treinado no esforço e na capicua. Um bicho de fôlego, ou o não o tivesse eu treinado em correrias imensas e gincanas de pescoço. Com a cabeça rente ao chão e entrelhada nos joelhos do cirurgião, o Bitó fez das tripas colhão, espipou meio pescoço e espetou uma dentada na barriga da perna do Ti Cabierra. O velho urrou como jamais tinha ouvido urrar alguém, bestas de grande porte incluídas.

A dentada, logo começou a sangrar, mas o cabrão do velho apesar do ataque, do sangue e da dor, não deslargou o Bitó e com a navalha mil vezes treinada cumpriu a operação e num abrir e fechar de braguilhas cortou o que tinha que cortar ao bácoro. Quando dei por mim, já o Bitó estava solto e o Ti Cabierra segurava nas mãos triunfantes os dois túbaros removidos.

“ - Cabrão do suíno que bem me ferrou! Paciência, E tu não te rias meu catano ca ainda te capo a ti tamém, vai-me é buscar álcool à tua mãe para desinfectar esta porra!

Lá fui e quando voltei já o Ti Cabierra estava na cozinha velha e de sertã ao lume. Depois da ferida tratada, limpou os túbaros do Bitó e sacou de uma pequena botelha de aguardente amarela de medronho, cortou os dois túbaros ao meio, fritou-os na sertã com azeite e malaguetas que trazia no bolso. Chamou-me e deu-me uma das metades a comer espetada na ponta da navalha. Mais por curiosidade que por fome ou vontade, comi. Era Bitó, mas não estava mau. Esponjoso, aveludado e picante.

Voltei depois ao quintal e ao Bitó. Mas o bicho já não reagia, nem fugia. Tinham-se acabado as correrias. Eu sabia que a capadela ia doer e guinchar, mas sempre julguei que continuaria tudo como dantes. Erro meu, tudo mudou. Percebi-o nos olhos do bicho, mas já o adivinhava nas primeiras dentadas nos túbaros do Bitó fritos em medronho. Como diz o velho ditado não se pode ter o bolo e comê-lo, ou no caso brincar com o porco e comê-lo…

Sem comentários: