22/03/06

Os Espanhóis, por Manolo

Quando passo a fronteira de Vilar Formoso sinto-me sempre como aqueles mexicanos que vão esquecer as tristezas na eufórica América. Talvez as eternas obras do IP5 contribuam para esse sentimento. É incrível: os anos passam e as obras estão na mesma. Raio de país especializado em estádios de futebol…

Os espanhóis não são como os portugueses. São excessivos onde nós somos moderados. São artísticos e criativos onde nós somos burocratas. São assertivos onde somos indecisos. Sã excêntricos onde somos concêntricos, divertidos onde somos convertidos.
Nós somos o povo que tem medo de parecer mal, somos a tribo que tem vergonha até da vergonha, que tem medo do medo, que não abre o coração. Um português nunca está bem, nem numa festa: estamos sempre a pensar na nossa preciosa figura, no que os outros possam pensar de nós, como se isso importasse muito, como se nós ou os que nos julgam fôssemos o centro do mundo. Nas festas portuguesas só se bebe até um certo ponto. Os portugueses não têm imaginação e não tiram as mãos dos bolsos… Os portugueses não falam, vigiam-se uns aos outros.

Os espanhóis falam alto nos cafés e aquilo não me parece um arraial, parece-me bem, parece-me vida. Comem tarde e muito e bebem ainda mais. Dormem siestas e fecham o comércio e reúnem-se em copas e tapas antes de jantarem à meia-noite. E, acima de tudo, abrem o coração e não têm vergonha disso. Se eu fosse espanhol era outro Mangas que é o gajo mais lamechas do Porco. E o Mangas, no fundo, é um espanhol, mas tímido porque é português porque senão fosse seria o D. Quixote de La Mancha. Ou o Sancho Pança…

Os espanhóis não nos saúdam com um aperto de mão, à maneira inglesa: pegam-nos na mão com as duas deles e apertam-na, à nossa, com muita força. Não se despedem com um calmo «adeus, até à próxima», mas abraçam-nos como se não quisessem despedir-se. Aliás eles nunca se despedem, até os desconhecidos dizem sempre «hasta luego».
E quando eles nos dizem que somos mais educados que eles, que ninguém se iluda: estão a mentir. Seguro! Eu acho que eles gozam com o nosso ar macilento, cadavérico, comprometido, de mal com a vida… Em Espanha não deve haver depressões, mas se as há devem ser as mais fortes do mundo, não podem ser como as nossas, depressõezinhas de merda, porque o gato está constipado ou porque o cão tem gazes ou porque nos dá prá angústia existencial... A Espanha é grande, enorme e Portugal é pequeno, minúsculo, é uma paróquia forrada de IPês merdosos e rotundas autárquicas que já deveriam ter atirado para a choça uns quantos autarcas sem gosto nem decência.

A primeira vez que levei o meu filho a Espanha, ele tinha 6 anos. Um dia, viajávamos algures por Castilla-la- Mancha, o puto exclamou, admirado com a imensidão da paisagem:
- De Espanha vê-se o mundo todo!
É o melhor slogan que alguma vez ouvi sobre Espanha! Sobre a imensidão dos seus horizontes, mas também pode ser sobre o seu cosmopolitismo, sobre a abertura de espírito dos seus habitantes, sobre o seu enorme coração e a sua excentricidade… Como isto foi dito por um pequeno português, talvez seja um sinal de que ainda temos esperança: não nesta geração bafienta ainda marcada pelas fronteiras que nos separaram, mas noutras que aí hão-de vir, como a do meu filho de 6 anos que, felizmente, têm a oportunidade de se admirarem tão cedo com o mundo todo que se vê de Espanha.

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