29/03/06

Qual Astérix, Qual Carapuça!, Os Irredutíveis, Somos Nós!, por Nicomedes do Ponto

As histórias de Banda Desenhada do Astérix começam sempre pela velha e relha lenga-lenga de que toda a Europa está submetida ao Império Romano. Toda não, existe uma pequena aldeia que resiste ainda e sempre ao invasor. E lá vai história de como os gauleses eram irredutíveis, corajosos, rebeldes e deram cabo do miolo ao Julinho.

Errado! Os Irredutíveis somos nós. Não são eles. É mais um dos erros do Goscinny. Já não basta o animal meter a torto e a direito o Coliseu no tempo do Júlio César, quando aquilo só foi construído 150 anos mais tarde, mas ainda tinha que mitificar a aldeia gaulesa, quando o que lá devia estar era a aldeia portuguesa, pois concerteza!

Na Gália dos Cabelos Compridos, César Chegou, Viu e Venceu. Mais, além de vencer, submeter e romanizar os pobres gauleses, Júlio César, para ter luta, teve que ir às laterais e abanar a árvore até cair fruta. A Guerra das Gálias começa com a provocação de César aos Helvécios e descamba em Gergóvia e Alésia, porque os Belgas e demais povos do norte se aliam ao Vercingétorix. A esse pobre coitado e depois de Alésia, César manda-o acorrentado para Roma onde mama uma data de anos cativeiro à espera da celebração do Triunfo de César – que nunca lhe foi concedido pelo Senado – após o que foi lançado para o abismo da Rocha Tarpeia, estoirando a mioleira no romano e rijo calhau. Durante o consulado e depois durante a ditadura de César, há algumas sublevações na Gália, mas sempre provocadas por povos germanos que passam o Reno e vêm fazer surtidas na Gália Cabeluda. A Gália em si, levou na careca e deixou de levantar cabelo.

Agora, barbas pela água demos nós ao Julinho. Aqui a ponta ocidental, o cu do mundo conhecido, a Lusitânia, dos algarves aos montes hermínios com inclusão dos caramielos hermanos, esta terrinha santa, nunca foi totalmente pacificada. Apostámos no bate, saca e foge e foi um sucesso. Não havia villa ou cidadela romana que não sofresse os nossos raides de roubalheira, pilhagem. Era um fartar vilanagem. E ó se aquelas matronas romanas eram apetitosas!

E atenção que não falo de Viriato que moeu a romana juizeira de 155 a 138 A.C., não senhor, a descida do Julinho cá à parvónia dá-se em 60 A.C. e ainda antes da Guerra das Gálias. Júlio César foi mandado para cá como governador à frente das suas legiões para controlar e pacificar isto. Trouxe duas legiões de 20 coortes e na Bética (Andaluzia) recrutou e treinou mais uma. Três legiões com cerca de 15.000 soldados. Não chegou!

Vinha ele a contar meia dúzia de castigos rápidos e ala que se faz tarde, mas enganou-se. Teve que ficar por cá a combater a guerrilha durante cerca de 2 anos. A nossa especialidade era fazer surtidas às ricas cidades, minas e villas romanas da Bética e roubar o máximo pra fugir em seguida de volta aos montes hermínios. César, arrepanhava os cabelos com isto – foi aqui que ele ganhou a careca -, raramente conseguia uma batalha de jeito e passava a vida a ver-nos escapar entre os dedos.

Teve que montar quartel permanente e acantonar as legiões para dar guerra aos índios, nós même pois claro! Viu-se obrigado a montar toda uma estrutura de bases militares entre o Guadiana e o Douro e fez de Santarém o seu quartel-general e daí ia combatendo a malta da patanisca e do agarrem-me que eu mato-o!, segurem-me senão eu desgraço-me!

Apesar de sair sempre vitorioso nos confrontos directos, nunca conseguiu acabar com as nossas surtidas de caça ao sestércio e à boa matrona romana. O Senado pediu-lhe contas, o gajo chateou-se e não teve com meias medidas. Ordenou a pilhagem e a destruição e queima de todas as aldeias e lugarejos entre Santarém e os Montes Hermínios e ordenou a redução à escravidão de todos os varões e a morte de todos os velhos, mulheres e crianças. Pilhou, queimou, escravizou, matou e deportou toda a gente, deixando a terra vazia e arrasada. Uma das tribos ainda se conseguiu escapulir para as Berlengas e o animal nem aí os deixou em paz. Desembarcou nas gaivotas e passou a fio de espada tudo quanto encontrou. Uma razia. E um facínora. Um autêntico suíno.

Mas nem assim, muita malta conseguiu esconder-se e escapar ao morticínio. Do fundo das cavernas e do alto das montanhas lá se continuou na má-vida. Com a mortandade, o Julinho considerou isto pacificado e foi-se. Pompeu e Crasso esperavam por ele para o mais famoso Triunvirato da história. E quando em Roma lhe jogaram à cara que os bardinas aqui da ponta continuavam no saque e pilhagem, César certamente terá repescado a tirada de um general de Sertório, que ainda hoje cola: “Os Lusitanos São Um Povo de Bárbaros Que Não Se Governa Nem Se Deixa Governar!”

Quantos são?, quantos são? Eles que venham, eles que venham! O Astérix somos nós!

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