24/04/06

Apelo à santidade dos célebres, por Billy The Kid

Os famosos são modelos para jovens. Vi isto quando, certo dia, vi na sala de professores um boletim de um tal comando juvenil de luta anti-tabagista auto-designado Caça-Cigarros. A luta contra o tabagismo não tem mal nenhum, pelo contrário. Agora, não pode é ser de qualquer maneira, senão torna-se uma cruzada. E se é para fazer cruzadas, há causas mais nobres. Eu, junto com outros, sentimo-nos vítimas, porventura justas, de uma cruzada: o órgão pedagógico decidira aplicar uma lei que proibe o fumo na escola. Passou então a fumar-se no WC quando chovia, num curioso regresso à clandestinidade adolescente, ou extra-muros, fora da jurisdição dos puros.

Irritei-me pois quando vi o jornaleco porque na 1ª página trazia fotos de três celebridades: Ronaldo, um cantorzeco meio amaricado e um político de renome que eu já não lembro. Por baixo e com letras gordas dizia: Eles Não Fumam.

Sentimo-nos atingidos e decidimos replicar. Como não arranjámos nenhum desportista, criámos uma lista de personalidades vindas à memória que aliavam o mérito pessoal ao consumo de tabaco. Com o passar dos dias, criou-se uma guerra. A nossa oponente escrevia Tintim, e nós contrapunhamos Lucky Luke. Onde ela punha Super-Homem, eu punha Sherlock. Contra o Mickey o Walt Disney, Pavarotti e Sinatra contra Domingo e Carreras, Bogart contra Di Caprio e por aí fora. A fase seguinte começou quando lemos: Saddam, Milosevic e Fidel. E aqui é que tropeçámos. Perturbámo-nos com a estratégia ofensiva e reagimos a quente: Clinton fuma. A razão foi óbvia. Conversáramos na véspera sobre o caso americano e um de nós dissera que, com Clinton, a América conhecera uma prosperidade única desde o pós-guerra. Ele não merecia ficar na História por motivos menores. Mas não marcámos pontos. Tivémos até que ouvir:

- Sim senhor, mas que lindo exemplo vocês arranjaram!
As gargalhadas diziam que perderamos a guerra.

Por isso, apelo aos famosos deste Mundo: por favor, tenham santa paciência mas, se fumarem, que ao menos contenham a líbido. É que nos dias que correm é praticamente impossível achar um modelo público de virtudes que fume. Assim, com tanta escassez de munição, não há guerra que se vença. Até parece que, se são fumadores, é porque são tiranos, infiéis, depravados, ou o raio que os parta! Já viram que o melhor que se arranja são fumadores envergonhados. Ou então homens como Saddam, Milosevic ou Fidel. Assim não se vai a lado nenhum! Já para não falar desse autêntico tiro pela culatra que dá pelo nome de Clinton! E o Estaline? E o Mao? Claro que só provam como a tirania anda associada ao tabagismo! No lado oposto, o dos tiranos que não fumam, o melhor que se arranja é um pífio Salazar! O único trunfo é o Churchill, mas começa a ficar gasto, já estou farto de ouvir sempre a mesma coisa: «Lá estás tu! É sempre o mesmo! Vê-se logo que não arranjas mais ninguém!» Assim não dá! Vejam lá isso. Senão, corremos o risco de ficar à porta do Admirável Mundo Novo!

Nota final da redacção do Tapornumporco - este post foi escrito à cerca de três anos. Actualmente o seu autor é um ex-fumador, o que demonstra à saciedade que o seu apelo à santidade dos célebres, de facto, não funcionou.

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