14/04/06

A CRISE DA CIVILIZAÇÃO BURGUESA, por Petit Bourgeois

A burguesia anda nervosa pois pressente que os tempos do seu domínio se aproximam do fim. Foi um fugaz domínio, diga-se. Em Portugal, não nos apercebemos da dimensão da mudança porque, em boa verdade, nunca conhecemos verdadeiramente uma sociedade fundada nos valores burgueses. Excepto em alguns círculos, geograficamente restritos, e em alguns curtos períodos, a burguesia não existiu. O Antigo Regime perpetuou-se nas instituições, nas mentalidades, na sociedade, na economia, nos comportamentos demográficos e na política até há 2 décadas. Champallimaud foi o melhor que tivémos. Como não tivémos burgueses dignos do nome, também não tivémos contestação burguesa. Esta inexistência histórica, porém, não nos impede que, olhando em volta, constatemos os sinais da crise burguesa e do desmoronamento do seu projecto social.
A sociedade burguesa fundamentava-se no valor do trabalho e no mérito individual. Contra os determinismos sociais ditados pelo sangue, o empreendedor burguês contrapôs as virtudes do trabalho, dando como corrupta e viciosa a vida aristocrática e clerical. A burguesia, austera, purtitana, alardeava os seus costumes espartanos onde a prática encontrava correspondência na moral e nos princípios. A família era exibida, orgulhosamente, como o cerne da virtude, a razão de todos os sacrifícios. A família restrita e nuclear era o módulo organizacional estruturado em torno da chefia paternal e da submissão feminina que, uma vez transplantado para o mundo social fornecia o modelo para a organização empresarial, comunal e nacional. A ordem e a autoridade eram princípios que sustentavam uma visão prospectiva que via no progresso, mais do que um ideal, uma base antropológica da natureza humana destinada à perfeição histórica. A riqueza acumulada, os lucros, eram o reflexo do trabalho e a quantificação pública do mérito individual do acumulador. Exibir a riqueza era uma forma de garantir um lugar na hierarquia social e propagandear o prestígio adquirido. Não havia um limite para a ambição burguesa, o optimismo era imbatível e, no limite, o domínio universal estva implícito nessa natureza. William Randolph Hearst, o magnate que inspirou Orson Welles, estava já na pose de Louis-François Bertin que Jean-Auguste Dominique Ingres pintou em 1832 e que se encontra exposto no Louvre. Bertin era, como Kane, um poderoso homem de negócios, proprietário do «Journal des Débats» e um tacticista que dava o seu empenhadíssimo apoio político ao rei-burguês Luis Filipe. Foram os anos dourados da burguesia francesa. Bertin foi o símbolo desse sucesso porque Ingres assim o pintou. Luis Filipe cairia com a revolução de 1848.
Mais tarde, muito mais tarde, após a 1ª Guerra, a burguesia inicia um lento processo de degradação, decadência e contestação. «Os Pilares da Sociedade», de Georges Grosz, pintado em 1926 e exposto no Museu de Berlim, são o anti-Bertin, tal como o dadaísmo é anti-burguês. Em Portugal, como não tivémos burguesia, não tivémos retratismo burguês, apesar de alguns esforços avulsos de alguns pintores como Miguel Ângelo Lupi. Como não tivémos retratistmo burguês, também não tivémos nenhum movimento estético que, como Grosz ou como os Dadas, se tivesse insurgido contra o estatuto e o domínio social da burguesia. Enfim, uma paróquia sossegada, eis o que somos. Apesar de tudo, do nosso mirante carregado de história, vejamos os sinais da crise burguesa que, a meu ver, não é conjuntural e anuncia um novo período emergente. Pós-moderno lhe chamam, sem que ninguém saiba exactamente o que seja.
- o racionalismo ateu está em crise. Os jacobinos andam discretos e mesmo os agnósticos não ousam ir além da afirmação do direito à dúvida. A materialidade dos princípios burgueses via na religião e nas crenças um obstáculo ao seu modelo de desenvolvimento e um sinal do obscurantismo do Antigo Regime. Foram vários os ataques lançados às religiões, ao clero e às mais diversas formas de religiosidade. Eis aí o regresso das religiões, seja sob a forma dos fundamentalismos mais fanáticos, seja sob a forma de novas seitas adventistas baseadas no simplismo de mensagens salvíficas, seja por outras modalidades esotéricas e espiritualidades interesseiras e muito mal sistematizadas. Há para todos os gostos: Tarot, bruxos, a filha do Solnado que fala com Jesus Cristo, aparições, etc.
- A ideia de um progresso imparável, cumulativo, ascendente e contínuo parece que já não atrai ninguém. Seja porque a epistemologia das ciências redescobriu novos paradigmas que expõem essa crença na sua dimensão histórica e ideológica, seja porque os fracassos da ciência e da técnica reconduziram a ambição humana a um estádio mais reflexivo do que actuante. Fala-se em reencantamento do Mundo, já não na sua redução a uma dimensão inteligível, a objecto de domínio. O mundo está perigoso, os pólos são múltiplos, os desequilíbrios ecológicos e as ameaças ao planeta obrigam a que se refreie a ideia de um homem devorador que, pelo trabalho e empreendedorismo, transforme a obra de Deus que é o Mundo original numa civilização edificada pelas mãos de Prometeu.
- Os valores do trabalho, do mérito e o individualismo burguês estão hoje em crise. A quantificação do trabalho, a acumulação da riqueza como reflexo do mérito individual são processos de exibição social que não garantem lugar durável na hierarquia social. As fortunas desfazem-se num ápice. E as que se engrandecem são mal vistas. Bill Gates é um dos homens mais odiados do planeta. A própria ideia de sucesso individual que substituiu a velha ideia de redenção, está hoje relativizada por uma nova ética do prazer. Não há lugar para o puritanismo burguês, para a moral do dever e do sacrifício. We want the world and we want it now! Depois, logo se vê...
- A estética burguesa fundada nos princípios do belo e do monumental estão, tal como a moral, relativizados a um nível de fragmentação que não é já possível falar em padrão de belo, nem de bem.
- As instituições burguesas, como a escola e a família no topo, estão numa crise de redefinição. Na escola não se aprende nada de jeito, não se garante o futuro de nenhum filho de família. Esta, por sua vez, desmoronou-se e refez-se numa diversidade de fórmulas dificilmente enquadráveis em qualquer normativo jurídico-social. E parece que ainda não acabou. Há novos desafios para o código civil. A base contratual em que edificou uma ideia de sociedade esfuma-se na volatilidade incrível dos contratos estabelecidos actualmente. Sejam os contratos que regulam as relações entre indivíduos que se caracterizam pelo capricho e pela efemeridade, sejamos acordos entre Estados que se volatilizam ao sabor das redefinições geoestratégicas, tudo é um instante. nada dura. A empresa, a instituição familiar, o santuário do trabalho, já não aguenta duas gerações de sucesso. Os capitais anónimos, a especulação bolsista, a volatilidade dos capitais, a imensa mobilidade, a deslocalização, o trabalho temporário que dilui os vínculos sociais, tudo serve para tornar efémera a empresa e saudosa a fábrica. Longe vão os tempos em que as chaminés de Manchester eram fálicas, eram o símbolo do sucesso burguês que definia o perfil das paisagens. O Google é uma empresa virtual. Não tem chaminé.
- A abnegação e sacrifício à Pátria, o respeito pelas hierarquias, a ideia de Ordem como condição do progresso, o dever de participação cívica, o respeito pela rua, os princípios cívicos, o direito de voto, a informação, a promoção pela cultura, tudo isso são valores que se dissolvem na sociedade pós-moderna que se conduz pelo fechamento, pelo prazer, pelo efémero, pela autarcia. Não há pai e não há chefe porque, acima de tudo, não há necessidade, não há crença no progresso. A ordem é supérflua porque não conduz a lado nenhum. Não há redenção pós-morte e a felicidade no fim da História também já não se vislumbra. Comamos, bebamos, fodamos. Depois, logo se vê... E o burguês desespera, pois claro que desespera. Pobre Monsieur Bertin. Olhem novamente para a foto do retrato de Ingres. Ridículo não? Para quê aquela pose? Prossigamos:
- Os bens duráveis, a propriedade, os bens legáveis, já não valem. Seja a terra que perde valor, a casa de família que se vende numa sociedade que, acima de tudo aprecia a conversão, a mobilidade e a pequena escala. As jóias e os livros, a fotografia massificada banaliza a imagem que se inculcava na memória do vindouros, o culto cemiterial, ou seja e em suma, todos os processos mnemónicos e simbólicos que levaram a mentalidade burguesa a condicionar a posteridade à sua vontade testamentária estão em crise. Não há vontade respeitável. Não há riqueza nem bens de referência. Não há padrões estéticos nem morais absolutos. Não há instituições duráveis. A mutabilidade acelerou-se ao ponto de que os próprios burgueses que criaram a ideia de mudança não se reverem na transformação vertiginosa da pós-modernidade. Para que é que um filho da burguesia quer uma fábrica de vidro? Ou de malhas? Atoalhados? Por amor de Deus...
Monsieur Bertin, porque nos olhas assim?

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