17/04/06

Historia de Nastagio degli Onesti de Sandro Botticelli, por M40


Entra-se no Prado pela porta baixa de Goya e, logo à direita, aí está ele, Sandro Botticelli (1440-1510), História de Nastagio degli Onesti, cenas I, II e III, três obras primas absolutas da arte ocidental. É uma impressão forte, profunda. Uma pessoa não pode deixar de parar: um nome como Botticelli, três quadros com cerca de 600 anos e tanta crueza, tudo tão bruto como ufilme de terror feito por Stanley Kubrick.

No primeiro quadro vemos uma donzela semi-nua perseguida por um cavaleiro impiedoso de espada em riste. O segundo quadro é o mais cruel de todos: o cavaleiro desceu do cavalo e esventra a moça, retira-lhe o coração e lança-o aos mastins que o devoram com avidez. No terceiro há uma mesa opulenta de um banquete e de novo o cavaleiro surrealista a perseguir a desgraçada donzela. Falta o quarto.

Estes três quadros da autoria de Botticelli relatam um conto do Decameron de Bocaccio. Nostagio, enamorado de uma jovem, passeia pelo bosque quando, subitamernte, é surpreendido pela fuga de uma donzela aterrorizada por um cavaleiro que a ameaça de espada em riste. Nostagio (quadro I) prepara-se para a ajudar mas é prontamente demovido pelo cavaleiro que lhe narra a sua história. Segundo Guido de Anastagi, de seu nome, a amada rejeitou-o ao que ele retorquiu com o seu próprio suicídio. Mas nem assim a donzela se comoveu.

Então, quando morreu a donzela foi condenada a ser perseguida todas as sextas feiras pelo amante rejeitado que lhe arrancará o coração, tantas as vezes como os meses que durou tal rejeição. Podemos, pois, perceber desde logo que os quadros representam uma estrutura narrativa semelhante à banda desenhada: no quadro I e no II não é um mesmo momento que é representado, como se fosse um fragmento de tempo captado por um olhar fotográfico, mas diferentes momentos de uma narrativa à maneira, precisamente, da BD ou do cinema. Se olharmos só para a metade direita do quadro I, apenas vislumbramos o passeio de Nostagio, mas no centro do quadro já deparamos com a sua disposição em ajudar a donzela perseguida pelo cavaleiro e pelo mastim. É uma espécie de pintura narrativa o que aqui se vê.

Finalmente no quadro III Nastagio resolve organizar um festim no bosque, convidando a família da sua amada para contemplar a funesta história de Guido de Anastagio. A família e a sua amada poderiam assim retirar, eles próprios, as suas conclusões sobre o mal da indiferença do coração e sobre seu justo (?) castigo. O resultado foi positivo para Nastagio pois o seu casamento consumar-se-á. Esse é, de resto, o motivo do quarto quadro desta série, o qual, infelizmente, não está no Prado mas numa colecção particular, a colecção Watney (pode apreciar-se aqui: www.gnoisis.art.pl).

Botticelli é um grande pintor e regista-se aqui a impiedade com que se dispõe a retratar o tremendo castigo da indiferença. Donzelas deste tempo que teimais em ser indiferentes para com os vossos pretendentes, lembrai-vos de Bocaccio, lembrai-vos de Botticelli: algures na eternidade que virá depois, um castigo terrível pode esperar-vos. O cavaleiro despeitado atirará o vosso coração aos mastins. Se eu fosse a vocês entregava-me já. Mais vale um amor piedoso que uma eternidade a fugir de mastins e cavaleiros assanhados…

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