10/04/06

O Ti Américo dos Túbaros, por Morsa

Na primeira vez que me lá levaram foi ao engano. Engano deles, obviamente. Na tasca de mosaico seboso e banco tipo burro, imperava o Ti Américo, velhote baixito e entroncado, de insulto fácil e trato abrutalhado. Das suas manápulas saíram rapidamente duas doses de moelas ferventes e uma dose de túbaros picantes, tudo acaçoilado em molho espesso.

Como mansarro, sujeito a praxe gastronómica, competia-me abrir as hostilidades com os túbaros e não só as abri como as acabei. A malta peluda e pagante desconfiou da alarvidade do animal em presença, mas acordou já tarde. Quando se preparava para assistir às tradicionais vomitadelas perante a informação de que se estava a comer colhões de porco, já o praxado mandava vir mais uma dose e discutia com o Ti Américo se não se conseguia umas burras de vinha d`alhos ou umas vulvas na brasa ou pelo menos, umas mioleiras a ranger na sertã.

Serviu-lhes de lição e ganhei um compincha de tacho no Ti Américo. A partir daí, viesse coronel ou brigadeiro, era a mesa do moi même que era servida em primeiro e para quem refilava lá vinha o velho Américo a berrar que a porta da rua era a serventia da casa.

Os túbaros da tasca do Ti Américo no Rossio Ao Sul do Tejo, logo depois da ponte de Abrantes (vira-se à esquerda para o velho casario borda d´água) eram dos melhores que jamais comi. A receita era secreta, mas dava para ver que o Ti Américo cortava a carne esponjosa em bocados pequenos, avinhava-os de véspera em receita especial e depois iam a frigir em caçoila de barro quase rasa, vindo para a mesa a ferver num molho espesso, especiado e picante. O Ti Américo era o homem dos túbaros de porco.

Quatro anos depois do fim da cegada militar, voltei a Abrantes e despachado o julgamento, procurei pelo homem dos túbaros. Estranhei logo a nova frontaria. A tasca já tinha dado lugar a restaurante de amesendação a pano, os preços passaram a upa-upa e de túbaros na lista nada! - Atão, e os túbaros? – Atão, e o Ti Américo?

Nem uns nem o outro. Um solicito serviçal lá me explicou que o Ti Américo dos Túbaros se tinha desgraçado. Tinha chegado a casa no ano anterior e deu-se com a jeitosa da mulher em amena embrulhada com um porco não autorizado. O Ti Américo homem abrutalhado e com túbaros a subir à cabeça, sacou da espingardaria e só parou quando rebentou com a própria mioleira. Matou a mulher e depois matou-se. O amásio viu passar a morte ao lado e fugiu por uma janela e Tejo acima. Julga-se que não gostava de túbaros. Maldito!

1 comentário:

Jota disse...

genial texto!
fez-me ficar um habitué deste blog!
desde já agradecido!