07/05/06

Acerca da Epopeia Americana II - A Cavalgada Heróica de Ford, por Mangas

Hoje, The Stagecoach (A Cavalgada Heróica, 1939) é um clássico. À época, foi como um olhar inovador em cinema, um épico filmado entre a alternância que decorre num interior fechado, e a contemplação visual a céu aberto de um espaço físico intemporal - uma diligência de onde emerge a complexa composição dos personagens em confronto, e o Monument Valley que, mais do que cenário de fundo, é personagem testemunhal que abarca toda a jornada, leia-se, epopeia. Nenhum dos objectos assume preponderância sobre o outro. Complementam-se. E se o Valley pressupõe a continuidade da diligência em progressão, esta é a unidade indivisível do grande deserto

Ford, americano de nascimento e criador de arquétipos por vocação e talento, em A Cavalgada Heróica, como em tantos outros filmes, subverte as aparências e mostra que se é no poço fundo da alma dos seus personagens que habitam os demónios, também é nesse lugar que devemos procurar a justiça poética que redime o comportamento humano – devolve a integridade ao médico alcoólico, empresta dignidade à prostituta, entrega sentimentos ao pistoleiro procurado pela justiça, confere cavalheirismo ao jogador sem escrúpulos, revela a hipocrisia corrupta do respeitável banqueiro. Ora expulsos pelas convenções sociais de uma cidade onde já tinham chegado alguns traços de civilização em bruto, como o preconceito, ora movidos pela busca de um ideal material ou de destino que se procura abraçar no extremo mais a Oeste da linha – negócio, marido, vingança, ou reforma dourada com o dinheiro subtraído do banco – uns e outros, novos ou pequenos, falsos profetas ou filósofos alcoolizados, todos sem excepção, ficam reduzidos à condição de pares entre iguais mal se sentam na diligência e iniciam a viagem de todos os perigos.

Numa economia de montagem admirável, duas, três câmaras no máximo em planos fixos, (o travelling de aproximação a Dallas e o grande plano do rosto de Ringo Kid como apresentação do fora-da-lei, são as excepções; o próprio duelo final é engenhosamente escondido e abafado pelos tiros das Winchester), Ford filma o clima interior dentro da diligência, e dela extrai a imensa tensão psicológica sempre presente nas inúmeras discussões e confrontos ideológicos ou comportamentais dos personagens. Só mais tarde, esta galeria de indivíduos tão diferenciados, se une em torno de um acontecimento que virá convergir o grupo no mesmo propósito: o nascimento do bebé. Parto difícil este o da Nação Americana, filha do exército e de um povo motivado por ideais democráticos, sede de aventura, aspirações a uma vida melhor, ou por laivos de ganância individual e corporativa. Ford foi o padrinho que testemunhou o acontecimento pelo cinema e imortalizou a aventura deste caminho através do continente em que a terra foi tomada quer pela negociação pura e barata, pelo roubo ou pela guerra, quer pelo êxodo migratório de colonos, mormons, pesquisadores de ouro, foragidos da lei, renegados, ou imigrantes que sulcaram os primeiros trilhos a cavalo ou em carruagens de espaços exíguos onde cabiam três de cada lado durante semanas.

O contraponto estilístico deste espaço hermético, mas em convulsão constante, é-nos dado pelas aguarelas exteriores do Mounument Valley - imagens e cenários de intensa captação visual e alinhados à dimensão metafórica de cada fotograma. Quase sempre o ecrã é recortado a meio: a metade inferior da linha do horizonte é terra, a metade superior, é céu. O peso do primeiro obstáculo a vencer no terreno, as planícies sem fim à vista, a coluna de montanhas e o deserto árido, sob o peso esmagador das nuvens brancas que separam a sombra minúscula dos homens do plano infinito a céu aberto. The wide open country.

The Stagecoach é uma viagem que cada personagem faz ao interior de si próprio, à sua capacidade de superação, e onde o clímax dramático atinge expressão maior quando na iminência do massacre índio durante o ataque à diligência, Hatfield, enorme John Carradine, guarda a última bala para Lucy - a morte rápida poupada à escalpelização, supremo sacrifício para quem embarcou com a missão de a proteger em nome do pai sob as ordens de quem lutou pelo Exército Sulista. A honra afinal tem memória. Na riqueza de composição de personagens tipo, o burlesco e satírico têm o rosto humano de Buck o cocheiro, ou do editor do Lordsburg Sentinel que anuncia desistir da história da convenção Republicana em Chicago para escrever a primeira página com a morte de Ringo num duelo de rua ainda por acontecer. Far, farwest news... ou os primórdios de “when the legend becomes fact, print the legend”.

O expressionismo estilístico iniciado em The Stagecoach e assente nesta relação Fordiana espaço/luz, terá continuação com The Wagon Master (A Caravana Perdida, 1951), num modelo de construção da Terra Prometida emergente do conceito de grande travessia - o povo em migração, a coragem de desafiar os perigos do desconhecido, onde a lei da arma foi, de forma incontornável, uma garantia de sobrevivência. Talvez a palavra do Senhor lhes tivesse dado alento, mas foi o estoicismo e a miragem do leite e do mel que os fez prosseguir contra o deserto, os ataques dos Apaches ou os desperados de assalto. Guardados estavam, para os que conseguiram alcançar, os pastos verdes e um oceano, tão longe de Israel, tão perto da Califórnia. Orson Welles disse uma vez que viu The Stagecoah vezes sem conta para aprender a contar uma história com a câmara.

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