01/05/06

ACERCA DA EPOPEIA AMERICANA - parte primeira. Por Jaime Wine

Os povos adquirem dimensão histórica quando se submetem a uma aventura épica. Os heróis épicos são símbolos colectivos que, através de uma longa viagem, adquirem um novo estatuto e uma nova identidade, colectiva e intemporal. Este salto qualitativo outorga ao povo assim estatuído um desígnio redentor e uma legitimidade reivindicativa pois que a epopeia envolve uma apropriação territorial que inaugura um novo tempo. Como Abraão. Os judeus tornam-se povo no caminho para a Terra Prometida, ganham dimensão histórica a partir do momento em que adquirem essa identidade, que é narrada e legável. A posteridade é o receptor da narrativa épica que assim condiciona a identidade vindoura. O futuro anunciado no nascimento profetizado de um Messias redentor impõe à sociedade a exigência da ordem e a subordinação a um fim, numa concepção milenarista que, desde Abraão até às utopias historicistas do século XIX e ao mito americano, estruturaram sempre a ideia que nós, ocidentais, fazemos do Tempo e da História. Assim vencemos a morte, inteligibilizando o mundo. Ulisses, por sua vez, referindo agora a epopeia grega, regressa a Ítaca. Abraão não regressa, Ur não passa de um ponto de partida e, nessa medida e em todas as consequências daí extraíveis, se pode aperceber a diferença matricial entre os dois conceitos épicos, o abraâmico e o homérico. Pela negação do regresso se condiciona a história e a identidade de um povo, o povo de Israel que, após uma diáspora única, se apropriará da Terra Prometida. O sofrimento, a dispersão, os massacres não foram suficientes para extingui-lo. Os judeus têm uma identidade fundada na palavra, no livro, na viagem para a Terra Prometida e no patriarcado. Por outro lado, o regresso de Ulisses aos braços da sua fiel Penélope mostra como a cultura grega é essencialmente ética, cívica e pedagógica, idealizando o homem grego como depositário das virtudes domésticas, da coragem e do ardil. Não há redenção nem espera messiânica. Telémaco não é esperado, aguarda sim o regresso de seu pai.

Leopold Bloom não parte nem regressa. Ou melhor, saiu de casa para comprar rins! É um homem comum numa epopeia modernista e a obra de Joyce, ainda que sob a evocação homérica, é interior e psicológica. O espaço é condensado na dimensão psicológica e vivencial. Dublin não é uma distância vencida e apropriada. O tempo também não é uma experiência histórica e colectiva, mas sim um entrecruzar caleidoscópico de vivências quotidianas. Homero e Joyce definem os limites civilizacionais da epopeia concebida sobre a matriz judaico-cristã que se desenrola civilizacionalmente entre estes dois marcos. O judaísmo introduziu uma noção colectiva e progressiva do tempo histórico, desconhecida em Homero e superada em Joyce. Abraão, o Patriarca do Povo de Israel, busca a terra da abundância onde correm os rios de leite e mel. Bloom foi comprar rins para o pequeno-almoço.

A identidade da América construiu-se sobre a reformulação do modelo judaico-cristão, milenarista e redentor, messiânico e colectivista. A cavalo (em vez de a pé), para a California (e não para para Israel), com a imagem (em vez da palavra) e no celulóide (em vez do livro) e com John Wayne no lugar de Abraão / Ulisses. John Ford é o relator da epopeia americana. A «Cavalgada Heróica» («Stagecoach»; 1939) é a odisseia americana segundo Ford. A diligência, acossada pelos índios, é como se fosse uma nau, uma cápsula seminal que transporta um punhado de estereótipos pouco virtuosos, incluindo uma mulher grávida que dará à luz durante a viagem, numa releitura evidente do messianismo de raíz judaico-cristã. Assim atravessam o desafiador, inóspito e incomparável Monument Valley. Vencida a distância, é a América que desperta. John Wayne é o seu herói. Sobre este magnífico filme escreverá o Mangas, muito em breve.

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