03/05/06

As Mãos De Abraão Zacut, por Mangas

Havia uma luz amarela. Os personagens alinhados a toda a largura do palco esperaram, antes de começar.

Cães à Solta são perigosos. Mordem as memórias de um tempo bárbaro e as dores híbridas do corpo e da alma como se fossem uma só. Choram como crianças. Vendem a alma ao fogo sagrado da interpretação, mas entregam-na com a integridade amadurecida das palavras do Luís de Sttau Monteiro. Deve-se ser íntegro quando se entrega alguma coisa aos espectadores. Durou duas horas a amnésia de Deus para com os judeus. Durante esse tempo, os corpos mergulharam no horror do holocausto e nem o Adagio de Samuel Barber lhes trouxe de volta o pomar de Franz. Os rostos, esses, foram apodrecendo lentamente, reféns das grades e das pedras colhidas no lugar das flores.

Tens razão Abraão Zacut, a Made in Germany deveria ter sido acrescentado, by jewish people. Entre parêntesis. Ou em letras pequenas em rodapé. Como os números de identificação que gravaram no teu punho. É que as mãos podem sangrar o arame farpado para morrer às portas da liberdade, mas ser filho de Homem e de Mulher nunca foi bilhete garantido para a salvação. E se queres que te diga, eu sempre achei que a esperança é bastarda e não mata a fome a ninguém.

A Companhia de Cães à Solta, sábado à noite, pode ser perigosa. Quando terminam, só as cadeiras permanecem no mesmo lugar, imutáveis por dentro e por fora, como se tivessem assistido apenas a uma peça de teatro.

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