29/05/06

A Epopeia Americana, Epílogo: O Regresso à Simplicidade Pós-Apocalíptica. Por David Relincho

A epopeia é um processo narrativo de colectivização da memória. Pela narrativa épica se consagra a superioridade do colectivo sobre o individual, do universal sobre o particular. Daqui nasce a ideia de Estado como a forma mais sofisticada de organização das sociedades, sacrificando o indivíduo aos interesses do grupo. A vontade e o imperativo moral sobrepõem-se à ordem natural, à lei da força e ao arbítrio. A razão da superioridade do social sobre o particular justifica-se na presunção de que a morte é vencível. Pela acção épica, pela edificação de uma identidade supra individual, se tende para a consumação do fim histórico da humanidade: a superação da morte. Somos mortais enquanto indivíduos, imortais, porém, enquanto participantes de uma colmeia. Da linhagem ao clã, da ideia tribal ao ecumenismo cristão, da fraternidade revolucionária ao humanismo universalista, todas estas realizações visam a superação da morte e do esquecimento. Institui-se para isso uma condição e um método: a subalternização do particular e a narrativa histórica. A História é uma produção ideológica. A memória de uma gesta garante uma dinâmica perpetuadora que se impõe à amnésia, ao atomismo individualista, à anarquia e ao olvidável. Contra o caos amnésico, a narrativa épica. A História, mitológica e narrada oralmente como nos primórdios, ou objecto de teorização e produção científica, como na actualidade, cumpre o objectivo máximo de alicerçar uma identidade que se desenvolve pelo tempo, percebido como experiência colectiva e progressiva. A construção da memória e da identidade é um acto demiúrgico, inaugurador de um novo tempo para um novo protagonista colectivo. Implica uma ruptura com os tempos antecedentes, ou, quando se assinala uma continuidade, exige-se um salto qualitativo que diferencie a epopeia do seu prelúdio. Como um organismo que se desenvolve de acordo com as suas próprias leis internas, também as sociedades com História, em nome de uma missão histórica e civilizacional que cantam e propagam em decassílabo, se arrogam ao direito de conquista e extermínio, sem que daí extraiam qualquer remorso moral, pois que o Estado supõe o Império, do mesmo modo que a semente só se justifica em função de uma consumação que lhe é exterior. É esta a raiz da ocidentalidade. É por isso que Sven Lindqvist pode afirmar, sem que o possam contradizer, que «Auschwitz foi a aplicação industrial de uma política de extermínio sobre a qual há muito assentava o domínio europeu do mundo».

Quando a cavalaria americana investe sobre os índios no filme de John Ford, A Cavalgada Heróica no deserto de Monument Valley, há uma barbárie que se expia: o primitivismo índio, sociedade tribal sem escrita e sem História, sem Estado e sem Império, sem finalidade e sem função orgânica. À luz do modelo ocidental, entenda-se. E só à luz do modelo ocidental. Por outro lado, há um poder novo que se anuncia: a cavalaria, isto é, a América. E um espaço que se torna palco de uma epopeia. Um espaço até então amnésico, simbolicamente desértico porque pré-histórico, anterior ao advento do momento épico. Sem dólmenes e sem catedrais. Monument Valley, já repararam, é de uma ironia contraditória. Mas que monumentos? Os que resultam da acção natural. Só. Montanhas e desfiladeiros, rochedos talhados pelo vento, bizarrias devidas ao arbítrio das intempéries. O topónimo é ocidental, claro. A carga de cavalaria em Monument Valley prenuncia que o espaço virgem do deserto se abre agora à acção civilizadora. Que é naturalmente expansionista, tende para um domínio que é não só exterminador, mas universalista.

O Apocalypse Now mostra a dimensão desmedida dessa força avassaladora e missionária que era a América de Ford. A amnésia original de Monument Valley era genesíaca e dá agora lugar ao horror apocalíptico. O Apocalypse Now é a epopeia falhada da América. A América buscava a hegemonia mundial e acabou por se confrontar com os seus próprios fantasmas interiores. Brando é a América gorda, sem ideal, sem futuro, sem dignidade e sem moral. É um modelo civilizacional que está em causa. Um novo deserto se anuncia. Apocalíptico.

Quando Travis (Harry Dean Stanton) regressa amnésico do deserto, no filme de Wim Wenders Paris Texas (1984), é toda uma tradição épica e narrativa que é abandonada. O deserto, genesíaco e objecto da conquista em Monument Valley, é agora pós-traumático, pós Coppola e anti-Ford. Travis tem uma identidade para refazer, uma memória a reconstruir. Não tem memória, sobreviveu ao deserto e busca agora a sobrevivência individual e a reconstrução de uma identidade que não é épica nem colectiva, de uma missão que já não é imperial nem grandiosa. Procura a mulher (Natassja Kinski) e a recomposição familiar. Encontra o apoio e a compreensão do irmão (Dean Stockwell). O tempo não é histórico, torna-se psicológico e íntimo. A missão não é grandiosa, a felicidade não resulta de um domínio. Nesta viagem equívoca, pois que o título supõe, falsamente, uma rota do Velho ao Novo Mundo, da cidade luz símbolo da velha matriz europeia ao Texas onde a América começou por erguer a sua grandeza, não se apresentam sequer personagens que sejam exemplos de virtudes morais. Contrariamente ao herói homérico que é modelo de virtude, ou a outros heróis épicos, impolutos, que ilustram uma indissolúvel relação entre a integridade moral, a robustez física e a acção triunfante, as personagens de Wenders são vulgares. A esposa procurada, Jane, não tem as virtudes de Penélope. Trabalha num peep-show em Houston. Abandonou o filho que agora a procura, por razões próprias. Não são razões de Estado, são caprichos individuais. Redescobre-se, neste filme de Wenders, a força da razão íntima, as fraquezas quotidianas, as arbitrariedades pessoais, os vícios e as fraquezas. Reversíveis, todavia. Pois se a história se corrige e se regenera, se há vida para além do Vietnam e de Kurtz, porque razão não podemos ser arquitectos do nosso quotidiano. A vida é uma coisa simples afinal. É esta redescoberta que Wenders oferece à América.

David Lynch, em 2001 realizará a mais perturbante desconstrução do modelo épico-narrativo em Mulholand Drive, denunciando o alicerce profundo da ideologia civilizacional do Ocidente assente sobre o modelo heróico, épico, narrativo e historicista, narrando simplesmente uma história absurda. Lynch produzira anteriormente, em 1999, uma história simples. The Straight Story, justamente traduzida para português como Um História Simples, é isso mesmo, uma história simples, uma anti-epopeia. Um idoso sabe que o seu irmão sofreu um ataque. Não o via há muitos anos. Pressentindo a morte, desafia todos os conselhos, supera todos os obstáculos e empreende uma viagem final, como quem cumpre uma missão pessoal e de consciência. Atravessa a América num cortador de relva adaptado, sobrevive a todas as dificuldades e a todas as intempéries, à doença e à velhice, à crítica e ao ridículo e chega à cabana do irmão. Aí, cumpre-se. Não é uma finalidade imperial nem grandiosa. Sentam-se na varanda, reunidos finalmente, em paz, e aguardam a morte. Alvin, o irmão procurado, é Harry Dean Stanton! O buscador de Paris Texas é agora obuscado. A América redescobre, neste filme de Lynch, a simplicidade da vivência quotidiana. Numa história que é baseada em factos reais. O que é extraordinário e significa que a América se redescobre na essência que nunca perdeu. Doravante, qualquer arremesso épico será ridículo. Assim o entendesse Georges W. Bush.

2 comentários:

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