20/05/06

A Epopeia Americana, parte 4ª: «Easy Rider» ou a Fuga do Paraíso. Por Dinis Maria

A Mãe Joad tinha razão. A América sobreviveu à Grande Depressão. Foram muitas as agruras, mas o caminho esperançoso conduziu à prosperidade. A partir dos anos 50, a América viveu o maior período de prosperidade e optimismo da sua história. Era a concretização do sonho dos pioneiros. Foi o tempo da alegria e da abundância. As famílias eram felizes. Compravam carros enormes, cromados, e viajavam pelas grandes paisagens da América, visitavam o Grand Canyon e o Parque de Yellowstone. Compravam aparelhos de TV, bebiam refrigerantes. As meninas namoram, ouvem os ritmos novos e juntam-se todos no Dia de Acção de Graças. Comemoram a independência, cumprem as suas obrigações religiosas, penteiam-se muito bem, estudam e trabalham. A América está feliz. Vejam as pinturas de Norman Rockwell (1894-1978), o pintor que, dos pioneiros a Nixon, melhor retratou a América real, e reparem como a América vulgar está feliz. Virão depois os tempos da rebeldia e da insatisfação, dos rebeldes sem causa e do inconformismo. Dean, Brando, Elvis. A geração que passou as dificuldades dos anos 30 e 40 declara-se incapaz de entender os excessos, a sensualidade e a revolta que, no entanto, está apenas a começar.

Em 1969, Dennis Hopper retoma a narrativa de John Ford, no célebre filme de culto que ele protagoniza e realiza, «Easy Rider». A cooperação entre géneros artísticos já não se faz agora entre um romance e um filme mas, sinal dos tempos, entre a celulóide e a banda sonora. Apesar de a gesta dos Joads ter inspirado Woody Guthrie, o jogral da América autêntica, e o «Easy Rider» se poder confrontar com o livro de Kerouac, o filme de Hopper compila uma série de sucessos que se tornaram símbolos de uma geração: The Byrds, The Band, Jimi Hendrix e Bob Dylan ente outros, mas, acima de todos, os Steppenwolf com o hino «Born to be Wilde». Não por acaso, juro eu, mas com uma pontaria certeira, Hopper protagoniza o filme com Peter Fonda. Quase que diria que esta história exigia o filho de Henry Fonda. A personagem outrora representada por Henry Fonda, Tom Joad, desaparece no filme de 1940 com um discurso grandiloquente e reaparece agora na estrada encarnado no filho que se tornaria símbolo de uma geração com o seu blusão de cabedal negro, com a bandeira da América pintada nas costas, no capacete e no depósito da sua Harley Davidson e com um nome simbólico, que remete para as origens: Wyatt. É o Capitão América, a América recuperada da depressão e da guerra. Após o New Deal e a Guerra Mundial, temos a América dos Babby Boomers. A epopeia americana prossegue com Peter Fonda, o símbolo da Grande Depressão superada e da prosperidade dos anos 60. Os Joads, isto é, a América, sobreviveram a todas as provações, apesar daquele nado-morto. Instalaram-se na Califórnia e aí prosperaram. É agora da Califórnia, de L.A., que Peter Fonda protagoniza, com Dennis Hopper, uma nova viagem épica que ajudará a definir a identidade da América.

Num brilhante ensaio publicado recentemente, Georges Steiner defende que a Europa se fez na distância percorrida a pé. Se a Europa adquiriu noção da sua identidade geográfica na peregrinação pedestre, a América fez-se a cavalo, como John Ford tão bem filmou nas suas películas. A conquista do Oeste fez do Cowboy um herói com dimensão épica nas epopeias filmadas de Ford. Por sua vez, os Joads, pela rota da 66, fizeram o caminho sob o signo do automóvel. No «Easy Rider» serão as míticas choppers que atravessam os grandes open spaces da viagem. As silhuetas em contraluz, à bela maneira de John Ford, e os vastos horizontes em ocasos de cores vibrantes, anunciam o final psicadélico sob o estímulo dos alucinogénios. A distância vence-se ao volante das Harleys cromadas, assim se faz a viagem e constrói o espaço. Já não a cavalo. Wyatt e Billy são os modernos heróis, tal como os nomes reclamam a continuidade com os míticos heróis das origens. O paralelismo é explícito quando numa das cenas do filme o realizador coloca em simultâneo os dois motards a remendarem um pneu da Harley enquanto, no primeiro plano, um velho cowboy, descendente desses pioneiros do Oeste, católico e hispânico, ferra o seu cavalo. Fonda e Hopper não têm família, aquela família hispânica cheia de filhos seriam os Joads, se nunca tivessem sido forçados ao abandono da terra mãe.

Os dois motards não buscam a terra prometida nem as riquezas da Califórnia. Não, eles saem da Califórnia, de Los Angeles, depois de angariarem o dinheiro suficiente para a viagem. Não são pobres, não têm uma relação existencial com a terra. Vivem do dinheiro que ganharam a traficar droga. Fonda lança ao chão o relógio de pulso, num gesto de libertação perante as obrigações de um quotidiano que lhe desagrada e parte em viagem. O gesto recorda, pelo contraste, quando os comandados do capitão Nathan Brittles (John Wayne) lhe oferecem no dia em que se reforma no filme de Ford «She Wore a Yellow Ribbon» (1949) um relógio de prata que ele nunca abandona. Wayne continuará ao serviço da Cavalaria Americana após a reforma, guardando o seu relógio.

Fonda e Hopper, pelo contrário, retiram-se antecipadamente. Fazem a rota pelo caminho inverso dos pioneiros e dos Joads, do Oeste para New Orleans, com planos e paisagens do Novo México a lembrar as fotografias de Robert Frank. É a América profunda. Encontram-na nas paisagens, na estrada sem fim, nas pequenas cidades perdidas no interior americano, no provincianismo, na violência absurda das comunidades rurais. Encontram uma comunidade hippie, onde se torna inevitável o confronto, mais uma vez, com os acampamentos dos Joads. No filme de Ford, o acampamaneto do governo, com água canalizada e louças sanitárias, é uma espécie de comunidade auto-suficiente, patrocinada pelo governo federal e administrada comunitariamente. É um manifesto político que se deve opor, como alternativa, ao liberalismo selvático, à prepotência dos proprietários agrícolas que se aproveitam da miséria causada pela Grande Depressão para oferecerem salários de miséria. Apesar de este manifesto ter foros de utopia política, no filme de Hopper o acampamento hippie, anarquista, onde não há autoridade, há apenas amor livre, droga abundante e trabalho improdutivo. Os dois amigos decidem pois prosseguir caminho, após um banho em que a nudez, ainda que não exibida, contrasta com o banho dos Joads nas águas do Colorado. É inevitável: o banho de Fonda lembra Woodstock, o dos Joads recorda Mark Twain. Pelo caminho, voltando a Hopper e Fonda, vão ter à prisão, aí encontrando um advogado, George Hanson, num papel desempenhado pelo jovem Jack Nicholson. Hanson, filho de uma proeminente família de uma provinciana cidadezinha, liberta-se do alcoolismo e da opressão social ao embarcar na aventura. São agora três amigos. Pelo caminho, Hanson inicia-se no consumo de droga e acabará, tal como o pastor Casey no «Vinhas da Ira», morto à paulada por uma milícia de camponeses locais que vê com maus olhos a chegada destes forasteiros. É um prenúncio do que acontecerá aos dois motards, mas não é um martírio. Já que, no filme de Ford, a morte de Casey desperta a consciência salvífica de Tom Joad, e Casey pode ser entendido como um mártir pois a sua morte tem consequência histórica. No filme de Hopper não, aqui a morte do advogado é uma simples morte bárbara que preanuncia destino idêntico para as outras personagens.
Chegam finalmente ao fim da viagem. Não o paraíso redentor, nem a Califórnia dos laranjais abundantes, mas a New Orleans do vício, do Mardis Gras, do excesso carnavalesco. A cidade do álcool, do jazz, da prostituição e do jogo. Instalam-se num bordel, contratando os serviços de duas prostitutas O bordel é o novo paraíso alcançado no termo da viagem, com os tectos pintados com cenas religiosas numa blasfémia que parece perturbar Wyatt que prefere a rua para celebrar a chegada. Deambulam depois pela noite do Mardi Gras, numa experiência psicadélica causada pelo consumo de LSD. A viagem é alucinante, já não há epopeia, não há caminho, nem 66. “We blew it” declara Peter Fonda. Na verdade, não houve redenção. Este «we blew it» contrasta amargamente com o discurso esperançoso de Henry Fonda do filme de Ford. Resta o regresso, ou a deambulação. Mas o regresso é tornado impossível quando uma velha carrinha, saída dos anos da grande depressão, com dois rednecks ao volante, como que saídos do filme de Ford, se atravessam ao caminho dos dois amigos. Um dos rednecks, podiam ser oakies, dispara um tiro, bárbaro, gratuito, causando a morte de Hopper. Fonda vai em busca de auxílio. É atingido também. A Harley voa pelos ares, como um anjo fulminado. Acabou-se a viagem. A câmara sobe, mostra a estrada com o rio ao lado. Não há mais epopeias. Não há viagem, nem regresso. A América perdeu a inocência do Flower Power. Estamos em 1969. Luther King e Bob Kennedy foram assassinados no ano anterior. Hendrix toca nesse ano no mítico Woodstock. Morre no ano seguinte. Recrudesce o conflito do Vietname. Jim Morrison choca a América, canta «The End»: Father / Yes son? / I want to kill you / Mother, I want to fuck you» Pobre Mãe Joad… É o tempo da indignação, do regresso à moralidae que fez a América grande. É o tempo de Richard Nixon e da reacção moralista. É o tempo de todas as hipocrisias. É o tempo da América cínica. Esta nova fase da história da América terá também ela a sua epopeia, contada para uma guerra sem propósito: o Vietnam. Será a viagem ao reino do horror e do absurdo, protagonizada por Marlon Brando, o louco Kurtz, na mais fantástica viagem da história do cinema, filmada por Francis F. Coppola no Apocalypse Now. Assunto para o Mangas.

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