12/05/06

A Guerra dos Sexos, por T.S.

O meu amigo Saraiva tem um amigo habilidoso e bem relacionado que conhece um vizinho que sabe de electrónica e de computadores à brava. E foi assim que o Saraiva instalou a tv cabo lá em casa…

Uma das coisas mais interessantes do serviço cabo em sinal aberto é a grande quantidade de canais porno que passam a estar disponíveis 24 por 24 horas ao dia. Deve ser giroligarmos a televisão e vermos as pessoas naquilo durante todo o santo dia! O Saraiva diz que há lá de tudo o que se possa imaginar e eu acredito. Mas para além do seu incomensurável valor instrutivo, pelos vistos, o porno em excesso também suscita a reflexão ético-socio-antropológico. Dizia-me o Saraiva, um destes dias:
- Ó pá, aquilo não se percebe como é que gajas tão lindas e tão boas andam naquela vida… São autênticos modelos e, se quisessem podiam ter os gajos que lhes apetecesse!

Esta reflexão está longe de ser original, mas é reveladora do habitual preconceito machista associado ao porno e à prostituição. Porque é que ninguém pensa, dos actores e não das actrizes, que «os gajos são tão giros, tão musculados, tão fortes e podiam ter as gajas que quisessem sem necessidade de andarem naquela vida?». Ninguém olha para o Nacho Vidal nem para o Roco Sifredi nem para os gigolos de «alto standing» como vítimas perdidas no caminho ínvio da prostituição. Pelo contrário, a maioria dos machos latinos gostava era de lhes estar na pele. Literalmente.

Eu cheguei mesmo a ter um colega na faculdade que estabeleceu contactos para entrar no mundo do porno. Foi à Holanda e tudo, mas a coisa falhou e ele acabou numa miserável carreira de professor universitário (não digo onde, para não ferir susceptibilidades). Agora as meninas… Tão giras, tão queridas, tão elegantes… Naquela vida de sofrimento atroz a levarem com um, dois ou mesmo três matulões por todo o lado, coitaditas, quando podiam ter uma óptima carreira num emprego, serem boas donas de casa, sei lá… Como é possível, pensa um verdadeiro macho?

Deixemo-nos de tretas e de preconceitos marialvas. A razão pela qual, elas, as meninas tão lindas, andam na prostituição – não me refiro à prostituição de beira de estrada nem à escravidão sexual que são coisas bem diferentes -, ou pelo menos, a razão que move muitas delas, é igualzinha à que os move a eles: a oportunidade de ganhar uma boa pipa de massa e até de enriquecerem ao fim de uns poucos anos de trabalho, fazendo uma actividade que, para a maioria, nem é assim tão desagradável quanto isso. Simples! As grandes estrelas do porno não andam lá forçadas: andam porque gostam e porque ganham carradas de dinheiro a fazerem o que fazem! Nós é que continuamos com a irreprimível tendência de as tomarmos como vítimas da perversão alheia. Mas eu só pergunto: quanto é que o meu amigo Saraiva não daria para estar no lugar de um indefeso macho violado por duas mulheres? Porque é que o macho nunca é a vítima inocente da luxúria de duas devassas? Mesmo em minoria, num ménage a trois, o vilão é sempre o homem e as raparigas as donzelas indefesas. Alguma coisa está errada!

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