31/05/06

A insustentável leveza dos inquilinos do Ministério da Educação, por Bigotsky

Este Ministério da Educação é uma rábula. Não pára de surpreender tudo e todos. Entre inúmeras medidas destituídas de sentido, agora dita-se o caos supremo: os
professores vão ser avaliados pelos Encarregados de Educação! Como? Importa-se de repetir?

Fugindo à adjectivação que esta medida suscita, fiquemos pelo óbvio (pelos vistos não): qual o saber, a autoridade, a competência que os Encarregados de Educação detêm para tal acto? Onde granjearam esta habilitação?! E, tirando alguns que pertencem a instituições de pressão, será que querem desempenhar esse papel? Com que fundamento? Baseado em quê?
E este não é um protesto corporativista ou assente nalgum receio de ser avaliado: a avaliação é e deve ser feita - mas com bom senso, competência, rigor, saber. É preciso sapiência, perceber a realidade que é e em que se situa o processo educativo e desenvolver os mecanismos necessários para que tal aconteça (e isto não é verborreia: pode efectivar-se esta avaliação, de forma simples, através dos grupos, departamentos, conselhos
pedagógicos, adequadas acções de formação, avaliação externa através de exames nacionais - mas com as directrizes perfeitamente definidas e não baseadas em incompetentes informações que ora dizem, ora desdizem, porque não se sabe adequadamente em que consistem os programas, como se leccionam e o que é importante avaliar).

Depois também é interessante saber e perceber qual a realidade da escola: um Director de Turma, com sorte, recebe a visita, ao longo do ano lectivo, de cinco, seis Encarregados de Educação. Mas como são todos que avaliam, obrigam-se os ditos a ir à Escola? Quais as medidas de coacção? E vão oferecer-se acções de formação para poderem avaliar os docentes? E, por
argumento análogo, serão os juízes avaliados pelos condenados (esta pena não é lá grande coisa...)? Os médicos pelos pacientes (cum raio, então dá-me voltaren quando eu precisava de viagra)? E podia continuar-se o delírio...

Curioso é dizer-se que, «enfim, esta avaliação não é muito importante, dilui-se num processo mais vasto». Bom, a ser assim então qual o sentido? Para que é que se faz? Com que intuito?
Procurando calar a indignação, só expressar que isto é uma medida, clara, de pressão, despropositada e ridícula. Quer-se sucesso à força (o Sequeira dizia, com alguma pertinência, que as suas notas iam passar a ser de dez a vinte)?
Como compaginar, por exemplo, a disciplina com a possibilidade do catraio dizer lá em casa que o professor é austero? Que é rigoroso? Que exige trabalho? Como se avalia a simpatia? Ou, então, de que estamos a falar? Já agora, ninguém avalia o desempenho deste Ministério? Alguém pensa?
Porque se precisamos de avaliação, não precisamos, certamente, de medidas avulsas, que descredibilizam e desacreditam as pessoas competentes e empenhadas que fazem mais pela educação do país do que os efémeros funcionários sedentos de protagonismo.

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