12/05/06

Mercado Burguês Do Peixe – Uma Lança Pequeno-Burguesa Em África!, por PBatatoon

A amesendação em restaurantes sempre foi uma manifestação pequeno-burguesa. Agora, além disso, é uma orgia colectiva de vinho, sexo e excessos de toda a ordem, uma espécie de carnaval. Antes, era o anúncio do que é agora e nada mais. No início, era a elite burguesa a exibir no espaço público um estatuto de exclusividade e superioridade em relação aos esfomeados das tascas. Agora a restauração superior massificou-se, os esfomeados foram para as cantinas e tornaram-se gordos e agora bebem e fodem todos juntos. Passados 20 ano dizem que estão cheios de saudades, o que tb faz parte do culto geracional próprio da mentalidade pequeno-burguesa.

As provas de pratos são tão duras que no final, os mastigantes que a elas se submeteram, podem dizer que pertencem a outra esfera, mais restrita, diferente dos outros. Assim, podem orgulhosamente afirmar-se no inner circle para o resto da vida. É assim que invocam a litrosa e o velho copo de três. Como os sargentos pançudos que vão às comemorações do 10 de Junho, na Praça do Império, com a boina verde cheia de traça metida na cabeça rala e enrugada.

Vejo isto como mais um sinal de aburguesamento que lembra que o acesso à restauração foi um dos principais meios de mobilidade ascendente que as classes populares encontraram para se aburguesarem, com um banquito nos restaurantes e casas de luxo, sem necessidade de sujar as mãos nas artesanais tascas ou casas de pasto. Basta ler Eça e Camilo. Nós somos justamente o resultado desse processo acelerado a partir dos anos 60 e massificado nos anos 80 e 90 na era dourada do Cavaco. Ignorar este facto é típico da mentalidade pequeno-burguesa (não, não é um insulto, é um conceito de análise sociológica).

Como prova desde ensimesmamento social, lembro como o Quim Barreiros se tornou um must da restauração com o seu popular restaurante Albergaria de Vila Praia de Âncora. A malta convidava o Quim com o propósito declarado de o gozarem nas noites de alambazança. Lembro-me como os mastigantes rebolavam de gozo com os pratos populares e ordinários do Quim Barreiros. Julgavam que quanto mais gozassem com o homem de Vila Praia de Âncora mais afirmavam publicamente o seu distanciamento relativamente ao que o restaurador representava: o tasco rude. Acontece que o Quim Barreiros, como outrora o Zé Povinho do Bordalo, de caricatura tornou-se símbolo, de toureado tornou-se primeira figura de cartaz e hoje é um must da restauração.

Voltemos ao essencial, que é afinal o que séculos de romanização, cristianização e educação promovida pelo estado, nunca deixou de ser o verdadeiro interesse da nação, por mais que estude: comida à fartazana e vinhaça!

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