27/05/06

O Anti-Cristo?, por Gore

Teria sido o grande filósofo Friedrich Nietzsche um precursor do nazismo? Reza a lenda maldita que o Anti Cristo, obra seminal do escritor alemão era uma das referências de Adolf Hitler. Hitler, de resto, apreciava imenso as sinfonias de Beethoveen e as óperas de Wagner de quem nunca li terem sido simpatizantes avant la lettre do nacional socialismo.

Estive a ler umas partes da primeira obra publicada por Nietzsche, A Origem da Tragédia. Neste livro, o filósofo alemão, apresenta uma concepção muito própria da mitologia. Segundo ele a lenda de Prometeu é «propriedade original da comunidade inteira dos povos arianos». Sim, leram bem: Nietzsche diz expressamente que Prometeu é um mito ariano; ao passo que o mito da Queda (de Adão e Eva) é um mito dos «povos semitas». Um gajo lê isto e pensa até onde é que ele irá…
Nietzsche, porém, descansa-nos logo a seguir, ao dizer que estes mitos são equivalentes («irmão e irmã») e, de facto são-no, porque em ambos existe uma desobediência expressa à ordem divina e uma expiação do crime (bem mais terrível, contudo, no mito prometaico).

Mas, depois, acrescenta o autor, há entre eles diferenças abissais: Prometeu, o mito ariano, «contrasta estranhamente com o mito semita da queda do homem onde a curiosidade, a mentira, a sedução, a lascívia, em suma, um cortejo de sentimentos mais propriamente femininos são tidos por origem do mal.»
Pelo contrário, «o que caracteriza a concepção ariana é a ideia sublime do pecado eficaz considerado como a virtude prometaica por excelência». Ou seja, para o ariano temos o «crime masculino», enquanto que para o semita temos o «pecado feminino».
Percebe-se que esta associação feminino/semita VS masculino/ariano tem subjacente a exaltação do ariano e o desdém pelo semita. Nietzsche parece-nos aqui, não apenas racista, mas também machista…

O filósofo chega ao ponto de citar um verso do Fausto de Goethe onde a glorificação da virtude masculina em contraste com o atavismo feminino é bem claro:

«Não vemos as coisas tão de perto:
O que a mulher vai fazendo em mil passos,
Por mais que proceda de forma ágil,
Logo o homem o completa num salto.»

Em suma, o crime masculino é o contrário do pecado feminino, é a maré incontrolável, a torrente que arrasta todos os limites à sua frente e não receia as consequências terríveis da Moira. É essa vontade poderosa e ariana- vontade prometaica e dionísiaca – que caracteriza o génio ariano e que o distingue da mentalidade da medida – apolínea e racionalista - do povo semita.

Eu leio isto e continuo a achar que não podemos acusar Nietzsche da interpretação monstruosa que Hitler fez das suas palavras. Muito menos do Holocausto! Mas que estas coisas têm potência para virarem a cabeça a qualquer serial killer acabado de chegar a Kaiser, lá isso têm. Não diria que Nietzsche foi um precursor do nazismo – acho até a ideia monstruosa – mas admito que Hitler viu aqui um filão que explorou como justificação sinuosa dos seus crimes.

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