02/05/06

O Caso Vitória, por Fungagá

Nos últimos tempos tenho assistido, perplexo, a um verdadeiro caso patológico que, a julgar pela ausência de reacção de quem de direito, parece ser a coisa mais normal do mundo. Trata-se do clima de verdadeiro estado de sítio que se vive na cidade de Guimarães por causa da mais que provável descida do clube de futebol local, o vitória de Guimarães. Parece que o Vitória não descia de divisão desde 1949. Consequentemente, uma parte dos adeptos do clube – já famosos por protagonizarem cenas mais ou menos recorrentes de vandalismo – acha-se no direito de ameaçar, insultar, agredir, destruir e avacalhar os futebolistas do clube.

A histeria começou há cerca de um mês quando o clube começou a resvalar perigosamente rumo à segunda. Desde então, uma multidão de indivíduos que não devem ter que fazer, passa as tardes no campo de treinos do clube a insultar alegremente os seus profissionais sem que ninguém, sobretudo, sem que as autoridades policiais, se incomode.
Entretanto o Vitória foi caindo cada vez mais e as reacções violentas de alguns adeptos foram assumindo proporções cada vez mais dramáticas: esperas a jogadores, mais ameaças, insultos, cercos… Entretanto alguns media e, até, alguns responsáveis do clube, foram urdindo discursos em que enalteciam a grande paixão da massa adepta vitoriana! O tanas! Isto é vandalismo e os energúmenos que se portam desta maneira já deviam ter sido identificados e processados. Mas não – neste estranho país ainda receberam hossanas pela sua «devoção vitoriana»… Mas tá tudo doido? E se, de repente, os outros adeptos dos sete ou oito clubes que também podem descer de divisão se começassem a portar desta maneira?

No domingo passado, depois da previsível derrota com o Porto – que jogador é que conseguirá jogar futebol debaixo de uma pressão tão insuportável quanto inadmissível como esta? – os hooligans passaram das marcas. Barraram os jogadores, vandalizaram o carro do futebolista dinamarquês Svard, ameaçaram de morte alguns jogadores e só não foram mais longe porque, entretanto, a polícia resolveu fazer um cordão de protecção ao autocarro do clube (entretanto ninguém, nenhum selvagem, foi identificado). Alguns futebolistas tiveram mesmo que ir dormir fora da cidade, outros têm as casas cercadas e solicitaram protecção policial, a maioria confessa-se aterrorizada e continuamos a falar da «paixão dos vitorianos»… Nos sites relacionados com o clube, segundo A Bola, há quem proponha um «enxerto de porrada nos gajos», há quem defenda que eles devem «pagar bem caro», enfim, é fartar vilanagem…

E mais uma vez, depois disto tudo de ter passado impavidamente perante a complacência de um país inteiro, eu pergunto-me que sítio é este onde vivemos? Para que serve o estado de direito e a suposta garantia dos mais elementares direitos dos seus cidadãos? Como é possível que um grupo de pessoas esteja assim sitiada por uma horda de grunhos sem que ninguém se incomode? Vão para a segunda? É provável. Por mim deviam era descer rapidamente aos distritais… Do planeta Marte!

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