19/05/06

O Ornitorrinco, por Automotora

Eu tive um sonho. Sonhei que os porcos eram um só. Misturados e fundidos num penico-vomitório. O Porco. Enfim, um ornitorrinco. Chamava-se adérito, era careca e gordo, de biceps salientes e belo com um apolo à custa de paelha diária regada com esfoliante; exímio no golfe e no matraquilho, assim poupando nas bolas. Durante o dia a emprestar dinheiro a juros e pela noite fora a insultar o capital e a pedir emprestado aos arrumadores, a quem adorava contrariar, sobre tudo e sobretudo sobre nada. Sempre de fato, gravata engomada e um cachecol que não lhe largava o pescoço desde tenra idade, indumentária com que se apresentava ao almoço, no fim do qual insultava o empregado de mesa porque os bagos de arroz, ainda por cima com cara de charrocos, insistiam em contar-lhe anedotas sem graça. Findo o almoço, por ali ficava a beber coca-cola, mergulhando o nariz no copo de cinco em cinco minutos e tomando apontamentos. Até ao jantar. Durante o jantar chamava o cozinheiro para lhe pedir desculpa porque sem querer tinha entalado nos dentes uma pobre lula moribunda. Devotadamente levava-a para casa e casava com ela. Aos domingos, ia com ela dançar tango, dizendo-lhe ao ouvido, ai cariño, que es una lulita muy guapa. Finalmente, completamente apavorado, consegui beliscar-me e acordei.

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