21/06/06

Fónix, já tenho 11 mundiais!, por Lebo Lebo

Meço a minha vida em Mundiais de Futebol. Tenho, portanto, 10 mundiais de idade, 11 com este. Boé, mas mesmo assim mais suave que a minha idade medida em anos.

É verdade que não me lembro de todos. A minha existência consciente (Aufklarung) começou com o Mundial da Argentina, esse ganho pelo Kempes e pelos árbitros, contra a Holanda do Resenbrink. Antes desse, tenho uma vaga ideia do da Alemanha e da sua defesa com Maier; Vogts, Bekenbauer, Scharzenbeck e Breitner, por oposição à Holanda do Cruijjfj e do Neeskeens. Não tenho memórias do Mundial de 70, lembro-me de estar a jogar a bola na rua com os outros putos, enquanto o Pelé desgraçava a Itália na final.

Mas do Mundial da Argentina lembro-me bem e do seguinte, o Espanha 82, lembro-me de tudo. A minha memória é claramente dividida em a.A. e d.A. , antes e depois da Argentina. No Depois entusiasmei-me tanto com os Mundiais – principalmente com o fantástico Brasil de 82, a melhor equipa que alguma vez vi jogar – e com o do México- do-Maradona que comecei a pensar que não me chegava o tempo de vida para ver todos os Mundiais que gostaria de ver. Foi um drama existencial profundo do qual nunca mais recuperei! E foi a partir daí que comecei a contar a minha idade em Mundiais de Futebol.

Claro que a seguir tive imensas decepções, principalmente com o Mundial de Itália, ganho por uma Alemanha burocrática e, sobretudo, com o dos Estados Unidos, uma oportunidade perdida de lançar o futebol nos States. Foi uma coisa tenebrosa esse mundial... Foi ganho pelo Brasil treinado por este Parreira do actual. O Parreira é um traidor à memória do grande Telé Santana que não ganhou, mas que construiu a equipa de sonho do Zico, Sócrates e Falcão. O Parreira, actual treinador do Brasil, já está a meter o escrete a jogar à maneira da equipa do mundial da América. Até o ronaldinho parece um mangas de alpaca a jogar à bola. É triste. Deviam mudar a cor da camisola da equipa e em vez de «escrete canarinho» passavam a chamar-lhe «escrete cinzento». E gordo!

Em vez de anos e de meses que são coisas mais ou menos anónimas, devíamos medir a nossa vida pelas coisas boas que nela acontecem. Por exemplo: uma pessoa via o Ze Bé na rua e dizia «olha, lá vai o ze bé. Um gajo porreiro. E tá conservado. Não parece mas já tem 100 idas ao Tromba Rija e 2000 ao Manel Júlio. E uns 30 000 cohibas fumados, mais coisa menos coisa».

Imaginem que nos encontrávamos com aquela antiga namorada da adolescência. Pensem no diálogo: «Mas tás na mesma. Parece que ainda só tens 150 quecas (mesmo que o aspecto dela denuncie prá aí umas 15000).»

Normalizar a idade, reduzindo-a à escala neutra dos anos, meses, semanas, horas e minutos é que não. Tá mal! A escala subjectiva da medida do tempo permitiria até um acréscimo de informação. Já imaginaram como seria fisicamente o Acácio, rapaz prás suas 15 idas ao Vila Lisa, 20 namoradas, 3 garrafas de Barca velha e 5 Mundiais? Ou o antónio com 35 campos de golf, 7 dos quais estrangeiros, num total de 500 green fees, 10 pratos de trufas e 5 toneladas de marisco no buxo? Ou o Francisco 5 vezes nas Caraíbas, 200 linhas de coca e 300 rave partys?

Imaginamo-los mais facilmente do que se disséssemos simplesmente que uns têm 37 e os outros 42 ou 24 anos ou não é? É muito mais informativo, se contarmos a idade em coisas boas - uma pessoa imagina logo o Zé bé, por exemplo, tal e qual como ele é com uma barriga proeminente, ar bonacheirão e charuto a poluir o ambiente. Mas dizer de alguém que tem 25 anos? De que adianta? Afinal existem milhões de pessoas que têm 25 anos, mas apenas uns quantos exactamente com 3 casamentos, 11 mundiais de futebol, 20 euros e 16 jogos olímpicos.

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