08/06/06

Mexilhões De Barba Rija, Esses Desconhecidos, por Kzar


Tomam-se alguns desses moluscos bivalves (2 kg para quatro convivas é porção assaz generosa), fresquíssimos e de bom tamanho, lavando-os em água fria corrente, raspando-lhes meticulosamente das cascas quantas pequenas cracas ou resíduos sólidos nelas haja e, especialmente, desprovendo-os de uma desagradável "barba" que possuem, vinda do interior da concha perto do vértice de junção das duas valvas e que servem para agarrar o bichinho à rocha e aos seus semelhantes. Nesta última operação, não sendo de rigor é ainda assim francamente aconselhável o emprego de uma tesoura com que se corte rente tal barba, desse modo se evitando a tentação de usar força que causasse dano aos animalejos.

Lavadinhos e sem pelos, estes nossos amigos deitam-se sem contemplações em panela de dimensão adequada, funda, na qual já ferventa água com dois ou três dedos de altura. Todavia, não chegam a tocar o líquido, disso os impedindo a providencial rede, grelha ou cesto que de ordinário equipa as panelas de pressão. Atrás deles, ansiosa, segue moderada manápula de sal, tendo o artista que usar do mais veemente autodomínio para guardar-se de dar de companhia quaisquer outros produtos. O azeite, os coentros, o alho, o vinho branco, a malagueta, a pimenta ou a inefável rodela de chouriço, tão do gosto lusitano, a trouxe-mouxe e às chapeladas, terão o seu lugar próprio apenas em outros ritos; aqui não se convidam.

Feito isto, é só esperar, lume vivo e panela tapada. Olhar não ajuda e por isso mantém-se o testo no sítio que lhe compete, deixando que saltite ao ritmo do vapor. Lá dentro, na promiscuidade intraespecífica de um espaço tão confinado, mas com transitória protecção da intimidade contra o humano e curioso olhar, os bichinhos, sob acção das sufocantes vaporações, abrem-se como botões de rosa: primeiro um, depois outro, logo muitos e enfim todos (ou quase, porque há sempre uns acanhados). Tudo é coisa de minutos, ansiosos, incertos, mas seguramente breves, sendo o excesso fatalmente deletério; a experiência, mestra da vida, ensinará a sentir o momento próprio, mais do que a conhecê-lo com exactidão.

Colhida então a cesta, viram-se em tumulto sobre a alfaia de servir, exilando-se para o caixote do lixo todos quantos se tenham feito púdicos. Apresentam-se à plateia desse modo singelo, já mais frescotes mas fumegantes ainda, havendo que atribuir a cada espectador uma competente e sumarenta metade de limão, que cada qual espremerá sobre a bicharada como aplausos, segundo o gosto próprio. Indispensável nesta representação é que o ponto fique a cargo de bebida à altura. Nada de grandes senhores, despropositados em peça tão modesta. O humilde mas eficaz Muralhas, convenientemente refrescado, não apresenta cadastro.

Quem é amigo, quem é?

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