16/06/06

Paula Rego, Goya E O Cabeça de Cenoura, por Couve Galega


O Poder sempre conviveu mal com a Arte. O Poder tem, como sempre teve, um desejo inato de se ver acalentado e reconhecido pela inteligentzia artística do tempo, lidando mal com a irreverência inerente à própria criação artística. A história é longa neste tipo de atritos entre quem pode, quer e manda e entre quem pensa, cria e eterniza.

Aliás, se despirmos a capa do poder a quem se vê retratado pela anarquia criadora, vêmos que o conflito entre uns e outros, é inerente à própria natureza humana. Já vi um pacato pai de família a armar um estrilho danado numa caricatura de rua, porque a verruga da beiça era para disfarçar e não para aumentar. Aqui no Porco e na Satânica, a entrega de Pissos pintados aqui pelo Vermeer ao vencedor da Prova Cega, já por mais de uma vez que ia terminando em bardoada porque a “liberdade criativa” reconhecida ao artista, só é muito bonita quando o artista cria sobre os outros. Quando o poder criativo desce sobre nós, a primeira vontade é de sacar da pistola.

Este intróito para quê? Para ir ao Goya, à Paula Rego e ao Jorge Sampaio. O nosso Cabeça de Cenoura (diga-se desde já e em abono da clareza que também é um dos meus ódios de estimação) entendeu que o seu retrato para a Galeria dos Presidentes de Belém, devia ser feito pela notável, reconhecida e imortal Paula Rego. Aspirava certamente a beber de alguma da imortalidade da artista, uma vez que a Presidência só por si não garante eternidade nenhuma, e a dele como se viu não foi famosa.

Mas, Sampaio devia ter espreitado Goya. Se o tivesse feito – pelo menos por aí -, veria que a arte nem sempre respeita o poder e que sempre que pode, afinfa-lhe. Mesmo pagando e bem, a criação é escorpião e morde na mão que lhe paga. E a Paula Rego resolveu ferrar o dente. O retrato que a Rego faz do Sampaio não é simpático. Como se poder ver da coisa, o que ressalta dali é um boneco apalhaçado. Pior do que faltar qualquer solenidade ou dignidade de estado ou da função, o que perpassa é a vontade de rir por um boneco apoucado e gozado, a que não falta um gozo à própria função com uma república de aula infantil de artesanato.

Sampaio dever ter torcido o nariz, mas com a criação e a imortalidade instituída não se brinca e engoliu em seco. Depois da obra feita e encomendada não é possível dizer à artista que não era bem aquilo que se tinha na cabeça e que vai para a cave. Tá feito, tá feito há que comer e engolir em seco, e não se fala mais nisso.

A família real de Espanha, com o retrato de Goya, teve que fazer o mesmo. No quadro “A família De Carlos IV”, de 1800-1801, a vaidade magestática não sai bem da pintura. Embora Goya não tivesse tomates para ir tão longe com a brincadeira infantilóide da Rego, vê-se que há um propósito claro de ridicularizar a família real. Dos olhinhos pequeninos às barrigas monumentais e ornadas de espalhafato medalhístico, das carinhas ridículas e fora de escala, às linhas aleatórias dos olhares, tudo ali aponta para o gozo do criador e não para a dignidade do poder perene que se quer imortalizar. Azar. Com aquele maltrato, quem se eterniza é a artista. O poder retratado quando muito será lembrado como palhaço, o que bem vistas as coisa até nem fica mal ao Sampaio.

E. H. Gombrich no seu livro “A História Da Arte”, refere a este propósito da retrataria real do Goya, o seguinte: “Não que aqueles mestres tivessem lisonjeado os poderosos (Ticiano e Velázquez), mas Goya parece não ter sabido o que era compaixão. As feições dos seus retratos revelam impiedosamente toda a sua fatuidade e ambição, toda a sua fealdade e vacuidade. Nenhum pintor da corte, antes ou depois de Goya, deixou semelhante registo dos seus clientes.”

A Irmã Wendy Beckett no seu “A História da Pintura” vai por aqui: “…mostra os retratados tal como eles são, fúteis e pomposos, (…) o retrato é impressionante, na crueldade da sua análise e na sua beleza. Os membros da família real são apresentados como se fossem um friso: pesados, de rosto soturno e satisfeitos consigo mesmos, apertados uns contra os outros, com pouca elegância e sem estilo. Estremecemos por eles, lamentamos o pobre rei estúpido e a rainha, rabugenta, e suspiramos pela grosseria impenetrável do herdeiro atarracado.”

Paula Rego na tradição de Goya. Lamentemos pois o pobre Lampadinha, estúpido, atarracado, fútil e pomposo. Estremecemos por ele.

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