07/06/06

Pornografia, de Witold Gombrowicz, Um Velho Muita Porco, por Coleccionador de Cromos

“A Pornografia” é um livro de Witold Gombrowicz, escritor polaco (1904-1969), feito em 1960 e cuja acção decorre em 1943 na Polónia sujeita à patoila nazi. Não é um livro sobre a guerra e os dramas da mesma, que apenas merecem umas curtas passagens. Pelo meio há uns episódios à volta da Resistência polaca e um curioso personagem que desistiu de chefe para ser só vivo, mas também isso é lateral ao cerne da coisa.

E que coisa. A história é curta e linear. Em plena Segunda Guerra Mundial, na Polónia rural, o porco Witold Gombrowicz, narrador e personagem, emparelha com um outro pérfido velho, manobrando astutamente dois adolescentes com a genitália aos saltos. Os dois velhos lúbricos, Witold e Frederico (personagem fascinante) saem da cidade e vão por convite para uma quinta. Aí, os dois porcos dão de caras com a bela Hénia e o apolo Karol, ambos de 16 anos. Qual deles o mais apetitoso. Embora prometida pelos pais a Alberto, Hénia destila sensualidade e derrete-se por Karol. Karol, como todos os adolescentes machos, tem os tomates aos saltos. Os velhos querem papar os dois, mas vêm que só lá chegam se os fizerem descer aos infernos, ao pecado e ao sentimento de culpa. Isto é, como abutres que são, sabem, que não conseguirão ferrar o dente em carne virgem mas somente em carniça conspurcada. Este é o início do livro. A partir daqui é impossível parar de ler.

Enquanto ao longe ribombam os canhões, a velhice canalha e ratazana, procura incendiar a volúpia infantil, num claro propósito de transgressão de regras e aproveitamento dos restos. É um livro de deliciosa malícia, de perfídia maquiavélica por parte dos dois sabujos, que fazem jogos de marionetas com a pulsão sexual dos teenagers inconscientes.

Gombrowicz é um mestre na criação de uma densidade psicológica muito forte, com uma perfeita construção de personagens que se movem num crescendo denso e coerente. Dois velhos a brincar ao Jardim das Delícias. Todo o romance e toda a trama roda à volta de uma pulsão sexual obsessiva de todas as personagens principais. A velhice rateira e calculista, manobra a juventude bela e impetuosa, numa lide de arena que prende de princípio ao fim. Pelo meio, há a guerra em curtas alusões, há religião, dilemas existenciais, crime e morte, mas isso são espinhos na rosa suja esculpida por Witold. Genial.

Mas atenção, que o livrinho não tem uma única cena ou descrição sexual, se por isso se entender a coisa dita cuja de esfregação e gozo. A Pornografia está no livro, mas sobretudo na cabeça dos velhos. Do que é dito adivinha-se o acto que nunca se vê. A Pornografia está na cabeça de cada um de nós. Como na de Witold, um porco sujo, um de nós!

O livro não é fácil de encontrar. Há uma edição da Relógio D`Água, de 186 páginas a 8,01€ que não está esgotada e que pode ser encomendada na Fnac (onde o obtive àquele preço), e deixo-vos com alguns excertos deliciosos, só para abrir o apetite:

“Na virtude estavam fechados para nós, estavam herméticos. Mas uma vez no pecado podiam espojar-se connosco…”

“Tento, disse a sorrir, chegar a algo parecido com estas crianças; pelo seu trabalho prometi-lhes uma prenda, pois é tarefa dura! Ah, a gente aborrece-se no campo por não fazer nada, é preciso deitar a mão a qualquer coisa, mais não seja por higiene, meu caro Witold, mais não seja por higiene!”

“Quer saber qual é o meu plano? Nenhum. Sigo as linhas de força, compreende? As linhas do desejo. Nesta altura estou empenhado em que ele os veja e eles saibam, também, que ele os viu. Haverá que ligá-los a uma culpa. O que a seguir sucederá, mais tarde se vai ver.”

“…e só participava na vida como cão escorraçado, cão sarnento. Na minha idade, havendo oportunidade de tocar na floração, de penetrar na juventude ainda que ao preço da depravação, parecendo-nos que a fealdade ainda pode ser utilizada e absorvida pela beleza, nessa altura… Uma tentação que varre todos os obstáculos, irresistível.”

“Eu sempre soube que isto me estaria destinado. Sou o Cristo esquartelado numa cruz de dezasseis anos. Salvé! No Gólgota nos havemos de voltar a encontrar. Salve!”

“E tudo isto – a morte, o nosso medo, o nosso horror, a nossa impotência – só para aquela mão jovem, jovem de mais, poder apanhar a miúda… Eu já mergulhava no acontecimento como se não fosse crime mas aventura maravilhosa dos seus corpos inexperientes e surdos. Volúpia!”

“…como que álcool puro; por conivência connosco, por nossa instigação e certa necessidade também de nos servir é que se expunham assim – e aproximavam com passos furtivos! – e preparavam para cometer semelhante crime! Era divino! Era incrível! Continha a mais fascinante beleza do mundo! Deitado na cama, eu exultava literalmente de alegria ao pensar que éramos, eu e o Frederico, a inspiração capaz de mover os dois pares de pernas…”


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