01/06/06

Praça da Alegria, por Cão

Gosto de aqui vir todas as manhãs. Em horas mais frias, já vi a lareira acesa, sendo convocado pela magia hipnótica do fogo. Há vários dias que a não acendem: o sol subiu à serra para exercer o seu egipto. Na televisão, ocorre o programa da manhã para reformados e poetas inúteis.

Esta hora diária faz-me bem. A outra vida recolhe as garras, por uma hora. Entro no limbo, lendo. Aqui entrei na memória da senhora Phyllis Bentley, na cabeça de Pedro Juan Gutiérrez, na bonomia de Mário de Carvalho. A inglesa, o cubano e o lusitano (Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, que belo título) gostam, livrescos e cavalheirescos, de aqui estar – num café par(a)do da serra. Faço-lhes companhia. O resultado é uma obra de melhoramento: da solidão inelutável de todo (mas todo) o ser humano, da asfixia respiratória (há outro tipo de asfixias) de todo (mas todo) o ser vivente.

Também há as putas das moscas. Zamboam rente às orelhas. Têm de ser sacudidas com um gesto cabrão, irritado, contra Deus. Lá para dentro, há sala de restaurante. Ainda lá não fui comer. Hei-de ir. Ele há mais dias – assim se espera.

Esta é a última manhã (última para sempre) deste Maio irrepetível. Amanhã é Junho, o mês claro. Há um livro, que nunca li mas hei-de, com um título muito bonito: Inventário de Junho. Escreveu-o Teixeira Gomes. Gosto tanto de livros como de títulos. Há autores muito secos no que respeita ao baptismo do que escrevem e dão a lume. Moravia e Kundera são exemplos: do primeiro, A Atenção, O Desprezo e A Romana; do segundo, A Imortalidade e A Ignorância. Por exemplo(s). Outros há que mostram garbo na titulação. Mia Couto (fraco, simpático escritor) inventou Cada Homem é uma Raça. Esteve bem. Luís Filipe Costa, esse gigante, romanceou Agora e na Hora da Vossa Morte e Borboleta na Gaiola. Cardoso Pires, o espertalhaço, ancorou o anjo.

O meu Pai, que não era escritor (nem se disfarçava disso) titulou filhos e netos a partir do seu nome seméninaugural: Carlos Daniel, José Daniel, Daniel, Carlos Daniel, José Daniel, Rui Daniel, Daniela, Sofia Daniel, Leonor Daniel. Outras famílias igualmente tentaram, a cada nascimento, a reedição do livro patronímico respectivo. Joões, Josés, Antónios; Marias, Teresas, Joanas.

Onde eu já vou. Interrompo, vou ao balcão, converso com a senhora (Maria) sobre Fé. Conto-lhe de uma coisa que ontem soube e escrevi ontem, em crónica, para O Eco: que há um chico-esperto em Cascais a ganhar cacau (depósito directo ou transferência bancária) pagando promessas por outros. O gajo (diz que) vai a pé a Fátima na vez de quem não pode. A senhora Maria ouve isto e depois desconcerta-me: “Eu tinha uma promessa a Nossa Senhora também, mas o meu marido não me deixa ir. Falei com o senhor padre e paguei para que alguém fosse por mim.” O sangue arenou-me as rosetas. Balbuciei: “Mas pronto, a senhora é um caso.”

Um caso. Disse-lhe que respeitava a fé dos outros, que os meus pais me não tinham criado na fé. Respeitar, no meu caso, é calar-me. Ela disse-me que aqui na freguesia “há muitos jeovás, mas pessoas de respeito que se não metem com ninguém”. Depois foi para a cozinha. Eu fiquei sozinho na sala de café. Sozinho à confiança.

O programa da manhã não é apresentado pelo Malato, o bem-disposto-profissional que também é “jeová”. É apresentado pelo Jorge Gabriel, o neto ideal das avós de Portugal. Estou sozinho na sala de café: as vezes que isto me tem sucedido. Na fronteira calendária Maio-Junho. A Praça da Alegria suspende-se para intervalo publicitário.

Tenho alguma cultura. Querem ver? Antigamente, este programa era apresentado por uma das minhas fixações: o Goucha. O Manuel Luís: a neta ideal das avós de Portugal. Lembro-me de o gajo assinar, há mais de vinte anos, uma crónica no entretanto extinto O Jornal. A crónica era gastronómica-restaurantina e chamava-se Em Banho-Manel. Eram textos bem escritos, lembro-me. O fulano é tudo menos burro. O “pobo” gostaria de que ele, Manel, se casasse com essa inenarrável distracção de Deus chamada Teresa Guilherme. Mas ele, népias. Está no direito dele. Eu faria o mesmo. Eu também preferiria ser, sei lá, entrefolhante, por assim dizer.

Para minha pura alegria, dá-se uma banda filarmónica no programa. Filmada na rua, interpreta uma marcha de concerto. Vou ver se me dizem de que filarmónica se trata.

Já disseram: Sociedade Recreativa e Musical Loriguense (de Loriga). A roliça fresquinha curricular previsível idêntica pepsodêntica democrática larclínica gerontófila loura apresentadora salienta que falta menos de um mês para a comemoração do centenário da Banda. Do melhorzinho que o “pobo” se lembra, é de manter as bandas filarmónicas. Digo eu, que sou suspeito neste amor por bombardinos, tubas, requintas, tarolas, sopranos, flautins, trombones, maestros, secretários e foguetes.

E quando vou a ver, é meio-dia: rima com alegria. O sol amareleja nas resistências cromáticas: o azul-azulejo do céu, o verde-cedro dos cedros, o branco urbano dos casais e a negrura domesticada do meu coração. Dizem que as cores são criações do cérebro. Que somos nós a pintar o mundo. Que cães e gatos vêem a preto-e-branco. E eu, que gosto de pintores e de pintura, fico sempre na antemão desse prodígio. Posso dar um exemplo: quando era infante, acontecia ser de bom-tom gostar de “azul”. Gostar, não: preferir. “Qual é a tua cor preferida?”, perguntavam às crianças quando, no meu tempo, toda a gente era criança. “Azúli”, respondiam as crianças todas. Eu também respondi isso. Mas era mentira. Era mentira, e eu sabia. A minha era a que é hoje e há-de ser sempre – a cor amarela. Negociei esta lucidez (e outras, e outras) comigo mesmo. Chegado a tardio adolescente (SG Gigante a 44 escudos, primeiras cervejas), refilei: “Amarelo. Gosto mais do amarelo.” Isto aconteceu em 1981.

Em 1981, comecei a sair à noite. O candeeiro público flashava o cedro privado do prédio. Era ao pé da curva. O meu prédio era amarelo e verde: uma coisa tão linda como uma omeleta de janelas. Fomos para lá viver em Junho de 1964. Não me lembro disso, mas algum dos daniéis anteriores se lembrará. Passam-se dezassete anos num fósforo, e começo a sair à noite. Sextas e sábados, Café Nelídia. Rapaziada e homenziaria, fumo e ruído, bilhar e pacman, cerveja e sextissábado.

Parece que nos estou a ver. Os jogos eram lá dentro. Passava-se pelas grades empilhadas no corredor cor-de-tijolo e húmido de canalização. O pacman era a cinco paus. Eu só gastava os cinco paus: foi o (único) jogo da minha vida, cheguei à nona chave (mais de 500 mil pontos). Dando uma porrada seca na ranhura, o cérebro electrónico tinha uma trombose benigna e dava três créditos. 3 x 500 mil igual a um milhão e meio de pontos. Eu era feliz, fazia o milhão e meio, o meu irmão estava vivo, o mundo parecia uma coisa arrumável, mesmo que não fosse sexta ou sábado. Lembro-me de rir. Eu já ri. E as essências perfumadas da língua portuguesa já me adentravam: o padre António Vieira e o Correia Garção de

O louro chá no bule fumegando

De mandarins e brâmanes cercado

Ruiva manteiga em alvo pão torrado (…)

Que coisa. Levanto a cabeça. A cabeça levanta-me. Meio-dia e 25: não voltarei aqui este Maio.

Caramulo, manhã de 31 de Maio de 2006

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