23/07/06

O Cego, o Rapaz e o Cacho

Era uma vez um cego vagabundo, miserável e desonesto. Fazia-se acompanhar nas suas andanças por um miúdo órfão e abandonado. Passavam muita fome e viviam da esmola e do roubo. Certo dia, avistando uma vinha que exibia uns belos cachos, o rapaz pediu autorização ao cego para saltar a vedação e roubar ao menos um que lhes adoçasse a boca e disfarçasse a fome. Que sim, lhe respondeu o cego, advertindo-o que se precavesse, mirando bem ao redor se alguém os observava. Pois que, naqueles tempos, por mais ínfimo que fosse o valor do roubo, duro seria o castigo e tanto mais duro quanto mais miserável fosse a condição do gatuno. O rapaz, experimentado já nas artes da sobrevivência - o roubo e a mendicidade - saltou o muro e regressou trazendo um belo cacho de uvas. Logo ali se acocoraram, à berma do caminho, acordando o melhor e mais justo método de bem dividirem o saque miserável. O cego, desconfiado, logo propôs que comessem à vez, debicando, ora um ora outro, com a pinça dos dedos um bago de cada vez. E só um bago de cada vez. O órfão, reverente, acedeu e inaugurou o repasto com o primeiro lance. Comoveu-se com o açúcar do fruto e gemeu de prazer. Seguiu-se o cego que, embora mais contido, logo sentenciou ser aquele o mais doce fruto que alguma vez provara e não o dizia impelido pela fome. O Sol feito açúcar deliciava assim a boca dos pobres. Logo se seguiu, naturalmente, a tentação. Como no Éden primordial, o cego decidiu, disfarçadamente, entalar na polpa dos dedos, não um, mais dois bagos de cada vez, violando assim o trato que o próprio antes declarara. Depois, sem disfarçar, foi debicando os bagos ao ritmo do desejo e não do acordo, colhendo aos dois e três em cada lance. Assim decorreu, por entre um silêncio comprometido e deliciado, até que, de súbito o cego ergueu o cajado e violentamente o desferiu na nuca do desprevenido mancebo. Abriu-lhe desta forma um lanho tão grande e fundo que logo brotou um jorro de sangue que lhe tingiu a cara. O sabor do sangue dissolveu o açúcar das uvas e misturou-se com o sal das lágrimas e a fúria da vingança. O rapaz, digerida a surpresa e submetida à raiva justiceira, com as mãos sujas de sangue, suor e açúcar, atirou-se ao seu pobre amo como um mastim insubmisso e perguntou-lhe:
- Que fazeis, pobre de Cristo? Por que me batestes?
O cego esboçou um sorriso e, sem perder a calma, o acusou de não haver cumprido o trato combinado de só comerem um bago de cada vez e alternadamente.
- Mas, se fosteis vós quem começou por desonrar a palavra....
E o cego lhe explicou que o silêncio do rapaz quando viu que o acordo fora desonrado denunciava que já antes ele próprio o desonrara também e por isso se conjugaram ambos na desonra com a agravante de o rapaz se aproveitar da cegueira alheia e desrespeitar a idade do cego, bem como a sua condição de amo. Ou então, se o cego fora o primeiro a desrespeitar o trato, o rapaz deveria, em nome da verdade que é a primeira de todas as virtudes e à qual devemos a primeira de todas as obediências, mais que ao próprio senhorio, ter denunciado o incumprimento. Não o fazendo, consentiu na impostura para aí fundar a sua impostura maior, assim tirando proveito da cegueira do seu oponente. Por uma ou por outra, bem merecido era o lanho que o cajado lhe provocara na nuca.
O rapaz concordou com a lição do mestre, largou-lhe a capa andrajosa que agrarrava entre dedos, aprumou-se e seguiram caminho. O rapaz à frente, pensativo, e o velho cego atrás, debicando o que restava do cacho.

Recontado a partir de um episódio de A Arte de Furtar (séc. XVII), de Manuel da Costa

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