26/07/06

Obrando em Obra de Arquitecto, por Kalatrava

Há dias na praia da Barra e estando eu espojado no colchão à volta do A Festa Do Chibo do Vargas Llosa, comecei a sentir um súbito aperto intestinal. Como podem já ver e arrepiar caminho esta posta não vai cheirar bem!, pois como dizia, em hora de serviço obrigatório, há que levantar o corpanzil e procurar por recato adequado à função.

Vestida a t-shirt e arrebanhadas umas moedas, dirigi-me aos cafés. Já no paredão, vi ao longe e lembrei-me das instalações de sanitários públicos à entrada da praia, coisa jeitosa e arejada a cheirar claramente a obra de arquitecto. Que se lixe, deve-se pagar e estar imundo, mas num há tempo pra bicas e explicações a jovenzarros de café.

Entrei no estaminé masculino, funcional, cheiroso e com uma funcionária a acabar mesmo de limpar a única sanita disponível. Fecho a porta, confirmo o estado de limpeza imaculada, verifico a abundância de papel higiénico, faço o desperdício habitual do mesmo para regalo do utente seguinte e abanco.

Chego a um impasse na narrativa do Chibo e começo a estranhar a imensa luz no cubículo. Só então reparei que toda a traseira e parede esquerda da retrete é feita em vidro martelado e que literalmente se vê tudo lá para fora!

Logo a poucos centímetros das vidraças um casal de gadelhudos abocanha-se enquanto vende pulseiras tropicais. A menos de um metro passa a multidão de ida e vinda da praia, e distingo na perfeição um par de mamas mais que jeitoso. Um puto passa logo ali com o pai e espeta as fuças ranhosas na vidraça a espreitar. Dei-lhe um chapo no nariz, mas pelos vistos o bandalhito nada sentiu.

Saí cá para fora e andei vinte vezes para trás e para diante da esquina envidraçada. A horda balnear passava e ninguém parecia reparar ou conseguir ver para além do vidro fosco e martelado. Eu via perfeitamente a t-shirt vermelha do cliente seguinte e as fuças esbugalhadas do animal coladas ao vidro. Olha mais um que descobriu que está a cagar em trono real exposto ao povo no meio da praça. Um autêntico pesadelo.

Ora foda-se, num dos momentos de maior aperto e indignidade humana, que exige esforço, concentração e privacidade, porque diabo temos de estar a sentir a brutalidade da exposição? Malditos arquitectos, será que não podiam aqui fazer uma casa de banho normal, fechada, escura, privada? Mas que raio dá a tal gente que têm sempre que inventar e subverter todos os conceitos básicos? Uma casa de banho num tem nada que saber, é pra obrar e nunca para fazer obra! Querem fazer obras-prima vão pró Louvre!

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