10/07/06

Obrigado Zidane !, por Pirrro

Esta imagem não é um símbolo de decadência, mas de dignidade! Ao contrário do que por aí se proclama aos quatro ventos, Zidane não traiu o futebol com aquela cabeçada fulminante num italiano provocador e vilão. Pelo contrário, aquela é uma cabeçada justiceira. O italiano mereceu e Zidane, fiel aos seus princípios, não abdicou da sua dignidade pessoal e dos seus, tendo trocado a Glória pela defesa intransigente dos seus princípios. Zidane não desiludiu, uma vez mais, e fez o que devia. Foi pena que a cabeçada não fosse mais acima que era o que aquele vilão merecia.

Infelizmente, a vídeo-justiça condena a cabeçada de Zidane, mas não capta as palavras insultuosas do provocador. Segundo o empresário de zidane, apoiado por peritos em linguagem labial, materazzi terá dito qualquer coisa sobre a irmã de zidane. Qualquer coisa «muito séria». Agora os que criticam zidane criticam-no porque com a sua experiência devia ter engolido em seco, devia ter sorrido e passado à frente. Como é que é? Mas agora temos que ignorar os brutos quando estes resolvem insultar os nossos? Entramos num café e há um boçal que insulta a nossa irmã, a nossa mãe, a nossa namorada… Que fazemos? Mudamos de café e pedimos desculpa? Temos que baixar a cabeça quando os cínicos atacam aquilo que consideramos sagrado? Já não há honra? Perdeu-se todo o sentido da dignidade em nome da moral hipócrita do pragmatismo – aguentar para ganhar o jogo?

Zidane, simplesmente, não pensou. Agiu. Não quis saber se deixava de ser o maior, nem se ganhava nem se perdia. Foi puro impulso, cedeu à vontade de justiça. E espetou uma valente cabeçada nesse detrito nauseabundo que teima em poluir os campos de futebol com o seu comportamento recorrente que é o materazzi. Aquela cabeçada significa a recusa de aceitar as regras do pântano, significa que não vale tudo e que há valores mais altos que o objectivo imediato de ser campeão do mundo.

Talvez a maior parte de nós considere que a provocação do italiano era para levar com um sorriso nos lábios, talvez haja quem pense que «vozes de burro não chegam ao céu». Eu próprio penso assim. Mas também não deixo de admirar quem, como zidane, não abdica das suas fronteira de honorabilidade nem a troco da glória, mesmo que não sejam as minhas. Ér por isso que não o consigo criticar em nome do pragmatismo. Zidane foi provocado e reagiu, mesmo sabendo que perderia tudo, qual herói de uma tragédia ática. Pelo futebol artístico, mas também pela lição de dignidade que nos deu, uma vez mais, eu só posso dizer:
Merci beaucoup, Zizou!

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