14/07/06

Paradise Lost de John Milton, por Astaroth

Depois de andar mais ou menos em parafuso por não ter cá em casa nada que ler que me apetecesse, resolvi-me e fui a casa do Grão Mestre Porcino vasculhar-lhe a biblioteca de cerca de 2000 livros. Para além da abundância e do bom gosto das escolhas do Grão Mestre, há mais um facto que me levou lá: é que é de borla! Um gajo chega, passamos a revista aos calhamaços ordenados por autor ou por género e ainda aprendemos umas coisas com os comentários solícitos do Guru. Saí de lá com duas sacadas de livros, embora praticamente nada do que trouxe fuja muito áquilo que já é o meu próprio gosto pessoal.

Dei por mim em casa a escolher entre Agualusa, Clarice Lispector, Camilo José Cela, Ballester, Malouf, Gore Vidal, Jorge de Sena e mais uns quantos. Comecei com o Agualusa e a Lispector e devolvi-os no dia seguinte. Não quer dizer que não volte a eles, mas, por agora, pareceu-me uma escrita demasiado vulgar, perdoem-me se ofendo alguém. Desisti do Camilo José Cela (de quem tinha adorado A Colmeia) pela razão oposta: demasiado difícil e experimentalista.

Até que me detive num livro de excelente apresentação, apenas 980 exemplares assinados pelo editor: o clássico O Paraíso Perdido de John Milton. O Paraíso Perdido é uma epopeia trágico/lírica que, como o nome indica, tem como tema a expulsão do homem do Paraíso, antecedida pela expulsão dos anjos revoltosos de Satã. Milton demorou cerca de 10 anos a escrever esta obra seminal. Traça uma narrativa que, fundamentalmente respeita os relatos dos Evangelhos e do Génesis, embora, aqui e ali, vá acrescentando aspectos da sua lavra. Como quando concebe a primeira tentação de Eva a partir de um sonho que lhe é sugerido por Satã; ou como quando inventa Abdiel, o anjo que em pleno sínodo dos anjos revoltosos, permanece fiel a Deus.

O livro é espantoso e eu próprio fico admirado por ter entrado de um modo tão entusiástico numa escrita deste tipo, tão densamente poética. Mas Milton apareceu-me na altura certa, quando já desesperava por um estilo de escrita que se afastasse do corrente. Satã era inicialmente um anjo bom que se revoltou contra Deus no momento em que este apresentou o Filho como o segundo da hierarquia celeste. Satã, Belzebu e as suas legiões demoníacas revoltam-se então e são expulsos do Paraíso pelo Filho de Deus para os abismos do Inferno. Na sua queda em pleno abismo as legiões demonícas demoram nove dias e nove noites a cair!

Milton vê a saga de Satã como se de uma tragédia ática se tratasse. Os anjos revoltosos lutam em desespero contra a ordem divina que sabem inexorável e invencível. Fazem lembrar os personagens dos grandes trágicos gregos, Prometeu, Édipo ou Sísifo. Para quem lê O Paraíso Perdido é como se estivesse a ler outra vez um Evangelho que já conhece, mas desta vez é tudo diferente: Deus parece ser um maníaco e um ditador obcecado em que o adorem; ao passo que Sátão e os seus demónios nos são apresentados com um rosto humano, com as nossas fraquezas (o ciúme pelo Messias, a inveja, o despeito e o ódio) e com o nosso espírito revoltado. É difícil não simpatizar com Satã, encarnação do revoltado e do insatisfeito. É difícil simpatizar com um Deus que manda dizer a Adão que apenas deve limitar a sua ânsia de conhecimento «aos assuntos do dia a dia» e deixar os altos assuntos para os seus superiores. Também nessa inversão nos apercebemos da genialidade de Milton e percebemos porque razão esta obra foi proibida e declarada maldita

Sublinhe-se ainda a excelente tradução e as notas preciosas de Fernando da Costa Soares e Raul Mateus da Silva. E, já agora, a escolha das excelentes ilustrações de William Blake (o pic do post é dele) e de Gustave Doré, dois génios românticos à altura do próprio Milton. O Paraíso Perdido – um livro, absolutamente, a não perder!

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