27/07/06

A Química e o Estudo Acompanhado, por Pentagrama

Fiquei ontem a saber que nos cursos de Ciências do 12º ano do ensino secundário, a disciplina de Química é opcional. Os alunos podem escolher entre Química, Biologia e mais umas quantas. Sublinho: nos cursos de ciências do ensino secundário!

Parece que muitas escolas já estão confrontadas com o inevitável: como a Química não é propriamente uma área fácil, os alunos optam por outras disciplinas e muitas escolas vão deixar e algumas já deixaram, pura e simplesmente, de ter a disciplina de Química nos seus currículos do 12ºano! Ao que chegámos: as escolas portugueses já não ensinam Química no 12º ano… Entretanto nas faculdades de Ciências é sabido que os universitários, cada vez mais, procuram explicações de Química, de forma a conseguirem concluir cadeiras exigentes que estilhaçam com os seus ténues conhecimentos liceais, baseados em opções conjunturais…

Podem dizer-me que isso tem a ver com os cursos para onde vão os alunos e não sei que mais. Mas para mim é um sintoma da podridão a que chegou o ensino em Portugal quando uma disciplina nuclear, como a Química, deixa de ter lugar, enquanto aumenta cada vez mais a carga horária e o carácter obrigatório de coisas como Estudo Acompanhado, Área de Projecto, T.I.C. ou as famigeradas Aulas de Substituição. Estas áreas têm um valor meramente instrumental e não um valor em si, ao contrário da Química, do Português, da Matemática ou da História, por exemplo. Mas a escola despreza cada vez mais o saber, para insistir em verdadeiros salamaleques didácticos. Nota-se aqui o peso dos lobies das Ciências da Educação que conduziram o ensino a este pântano: ensinar a aprender, só que à custa do sacrifício do que verdadeiramente interessa aprender! Formam-se especialistas que supostamente ensinam a aprender, só não têm nada para aprender nem para ensinar.

É disparatado que os alunos tenham uma disciplina de carácter obrigatório durante dois ou três anos (9º, 10º e 11º anos) para aprenderem a mexer em computadores (TIC); que percam tempo em aulas de substituição a aprenderem a fazer Projectos (deviam é ir namorar ou jogar à bola nos feriados); a aprender a fazer Projectos na área de Projecto, mas não saberem nada de nada para poderem projectar alguma coisa. E estudo Acompanhado? Não me lixem. Estudar acompanhado é uma contradição nos termos. O estudo sério não é acompanhado, é sozinho, a dar duro. Eu, pelo menos, sempre que estudei acompanhado foi com as garinas que tentei sacar, assim a modos que «queres ir estudar pra minha casa? Os meus pais foram passar o fim de semana a casa de uns tios…» E nunca estudei nada que se visse, nessas situações, como é óbvio.

Não nos iludamos: o país está preparado para competir com os outros – parece que só este argumento da competitividade convence os tecnocratas do governo - se a futura geração souber mais física, mais química, mais matemática, mais português, mais filosofia e não mais estudo acompanhado ou mais área de projecto…

Entretanto, as disciplinas verdadeiramente nucleares, aquelas que veiculam o verdadeiro saber, que criam o património cognitivo que nos compete deixar às próximas gerações, vão sendo sacrificadas, alegremente, à custa destas patetices. A Química é o que é, o Português está reduzido ao discurso administrativo e burocrático e desinteressou-se da literatura, a História não tem tempo (nem lectivo), a Filosofia está como a Química, é opcional no 12º ano de Letras, só a Matemática ainda resiste mas, pelo andar da carruagem, é a próxima opção a ser suplantada por uma eventual Engenharia do Quotidiano, ou coisa que a valha… Deve ser isto o tal choque tecnológico de que este governo tanto fala. E assim vamos, cantando e rindo.

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