21/07/06

Rua!, por Porco a Andar de Bicicleta

No tempo do cro-magno político Pedro Santana Lopes, não sei se estão recordados, os media portugueses fizeram um alarido maior que o big bang a propósito de um erro da equipa do ministério da educação do governo da altura. O erro meramente instrumental, embora grave, consistiu nos famigerados erros nos concursos de colocação de professores. A tempestade foi de tal modo que redundou na demisssão da ministra da educação da altura. Todos achámos muito bem.

Então que dizer agora perante a verdadeira atrocidade que é a decisão da actual ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, em mandar repetir os exames de fisíca e de química? A outra ministra foi-se embora por muito menos, incomparavelmente menos…
De facto, o caso actual da repetição dos exames de fisíca e de química é incrível, é a verdadeira expressão do estado lamentável a que chegou o ministério da educação do governo de Portugal! Esta decisão já foi classificada por pais, por todos os partidos políticos representados no parlamento (à excepção do inenarrável ps), por professores e alunos, em suma, por todos menos o governo e os seus funcionários partidários como, cito, «incompetência», «autismo», «arrogância», «irresponsabilidade» e «displicência».

Não há muito a argumentar a favor do governo de Sócrates – caladinho, muito caladinho... - , tal o surrealismo da medida! É tudo mau:
Os fundamentos da decisão, abstractos, vazios de conteúdo e inconsistentes. Nunca se percebeu claramente porque se repetiam os exames. Disse-se que as provas estavam erradas, mas ainda agora no Parlamento a Ministra garante que não e «que tudo correu bem nos exames»! E como correu tudo bem, tá a repetir!, conclui, e sou eu que fico baralhado no raciocínio… Então corre tudo bem e repete-se tudo, arranja-se esta salganhada e gaste-se um fortuna em tempo de austeridade na repetição de exames que correram bem? Tá tudo maluco ou sou eu?

O decreto fantástico da repetição dos exames alega que a média de Física e de Química foi muito baixa. Mas há outros exames de disciplinas com médias igualmente baixas – matemática, por exemplo, no 12º ano ainda foi pior – e não são repetidos. Porquê? É uma questão de lobies? E porque não repetir história ou português, cujos resultados também não foram brilhantes? E como é que o governo decide qual o patamar a partir do qual se justifica a repetição de exames? É 6,9? Ou 8,2? Porque não 6,8? Ou mesmo 12,4 que em certas disciplinas se poderá considerar um péssimo resultado? Terá a equipa de especialistas em eduquês do ministério chegado a alguma conclusão científica baseada no estudo do processo de ensino-aprendizagem que determinou o 6,9 de física como patamar cientificamente intolerável? Mistério… A arbitrariedade da decisão é evidente – isto é completamente estapafúrdio e arbitrário.

A outra razão, mais ou menos enigmática, totalmente arbitrária e absolutamente abstracta do decreto alega que, eu nem sei formular aquilo muito bem, perdoe-se-me a inépcia mas o eduquês metafísico não é o meu forte, alega que, dizia, os conteúdos do programa são novos e os alunos ainda não tiveram tempo de adaptar-se aos métodos, à matéria e aos novos processos de avaliação. Como é? Os alunos é que não tiveram tempo para se adaptarem ao novo programa? Tiveram um ano lectivo, o mesmíssimo ano lectivo que teve qualquer outro aluno de qualquer outra disciplina anual. Se alguém, eventualmente, não teve esse tempo, foram os professores, mas que eu saiba não foram eles a queixarem-se. Agora para um aluno o tempo de adaptação a um programa novo é exactamente o mesmo que a um programa velho. O argumento não faz, pois, qualquer sentido e além disso os craques do ministério tiveram mais que tempo para detectar e corrigir este alegado problema, e, pelos vistos, não o fizeram.

Em função destes debilíssimos e disparatados fundamentos, decidiu a sra ministra Rodrigues que a melhor decisão era repetir. É incrível, nem se acredita! É claro que hoje no Parlamento a ministra levou uma sova de toda a oposição da esquerda à direita sem excepção, de meter dó! A sra engasgou-se, titubeou, balbuciou, esperou desesperada o 7º de cavalaria que não chegou. Foi constrangedor e ainda conseguiu piorar mais a situação porque, à boa maneira deste governo, foi arrogante – numa estranha versão tímida, assim a modos que eu é que mando mas dito muito baixinho – foi insegura, e saiu-se com mais umas pérolas.

Como aquela de dizer «Não leio nem corrijo exames. Essa não é a função de uma ministra. Nem era possível ver mais de 50 provas». Pois, mas a decisão de escolher as equipas que os fazem é sua e é sua a responsabilidade quando as coisas correm mal. A sua antecessora demitiu-se por falhas informáticas num concurso de professores, já não há quem se lembre? A responsabilidade técnica de quem fez os exames deve ser pedida, mas é preciso ir mais além, até à responsabilidade política de quem os escolheu.

O caso é gravíssimo e a ministra parece não ter aprendido nada. Por causa dela há alunos beneficiados pois ficaram com a possibilidade de realizar duas chamadas enquanto outros, que escolheram realizar apenas a segunda quando as regras do jogo eram outras, apenas farão uma. Há alunos que entrariam nos seus cursos de sonho com os resultados anteriores e que agora serão ultrapassados por outros pior classificados.

Há mais uns quantos milhares que deverão estar indignados porque apenas aos de física e de química é dada a possibilidade de repetição, mas não em outras disciplinas em que também existem alunos com maus resultados. Agora, como é óbvio já se está a organizar um movimento de pais a nível nacional – a começar no norte – que ameaça impugnar toda esta trapalhada.

Por mim considero toda esta sequência de decisões uma das maiores barbaridades da história da educação em Portugal de que há memória. Depois disto a ministra e a sua espantosa equipa não se vão demitir. É certo. Nem sequer foram capazes de prometer a devida sanção nos rteponsáveis mas directos por tudo isto. Aliás nem admitiram que algo correu mal! Os burocratas ministeriais que são tão exigentes com os outros, eles que constantemente apontam os professores como os culpados do estado lastimoso da educação, não vão poder agora culpá-los da sua própria inépcia. Nem ao menos foram capazes de assumir que as coisas correram mal e de apresentarem um pedido de desculpas aos lesados. Claro, isso era assinar a óbvia demissão.

É nestas alturas que eu me lembro do falecido Vítor Correia ex-árbitro e ex-poeta, digo eu, que afirmou um dia o célebre dito:
«Ó meu amigo, eu desde que vi um porco a andar de bicicleta no circo, já não me admiro de nada neste país». Mal fazia ideia de que a capacidade que este pobre país tem de nos surpreender é, pelos vistos, infinita!

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