14/08/06

“Ardo como deve ser. Vem, Demónio!”, por Anjo de Luz

“Ardo como deve ser. Vem, Demónio!”

Este excerto faz parte do “Noite do Inferno” de Arthur Rimbaud e da sua obra prima que é o “Uma Temporada no Inferno”. Esta foi a única obra poética do Rimbaud que li até agora. É uma coisa de tal maneira estranha, alucinante e brilhante, que de imediato desperta a curiosidade sobre o autor de tais linhas.

E dei por mim a ver os callamaços lá de casa sobre o Rimbaud. E o mais esquisito é que nas obras consultadas e dos excertos biográficos recolhidos, nada transparecia sobre a motivação de tal escrita. Mesmo o Harold Bloom que mete Rimbaud entre os Génios e lhe dedica um capítulo inteiro à obra, pouco ou nada adianta sobre a vida do fazedor. Havia ali algo que escapava de certeza. Para melhor vos elucidar, vejam por exemplo o excerto biográfico mais completo que lá encontrei em casa, na enciclopédia Verbo/Salvat/Público:

“Rimbaud (Arthur), Poeta francês (Charleville, 1854 – Marselha, 1891). A sua obra teve uma grande influência na poesia moderna da França e da Europa Ocidental. Muito jovem, foi atormentado pela inquietação e pela revolta e levou uma vida turbulenta e aventurosa. O talento de Rimbaud desenvolveu-se num tempo relativamente curto. A sua violenta oposição à sociedade e as suas aspirações apaixonadas à liberdade encontram a sua expressão em “Le bateau ivre” (1871). A sua finalidade foi renovar a inspiração poética e criar uma nova linguagem como meio de expressão de uma realidade transcendente. Em “Illuminations (1872-1873) encontra-se uma tentativa desesperada de traduzir a sua alucinação por palavras. Em 1873, terminava a sua carreira literária com “Une Saison En Enfer”, reflexão sobre o passado e ao mesmo tempo o reconhecimento do seu fracasso no plano artístico. Foi ele o primeiro a utilizar o verso livre que, mais tarde, através dos simbolistas, iria tornar-se corrente na poesia moderna. A sua obra torna-se conhecida graças a “Poètes Maudits”, de Verlaine (1884) e à sua edição de “Illuminations” (1886).”

Como? Só isto? Isto podia ser o resumo da vida de um enclausurado Mallarmé ou de um Hawthorne. Vejam no entanto que há aqui neste resumo “bem”, algumas pistas que não batem certo: “turbulenta”??, “aventurosa”??, “violenta”??, “paixão”??, “alucinação”????. Isto tem água no bico e deixa-nos de água na boca. O Génius do Harold Bloom - em termos biográficos - ainda é pior.

Porra, sinto-me sempre enganado por estes resumos caquéticos e que obviamente reconhecem o génio mas escondem o incómodo que a pessoa em si e a sua vida provoca. Já estou farto de dar com estas merdas politicamente-correctas que nada nos dizem e adiantam. O gajo daquele resumo biográfico simplório jamais escreveria o “Uma Temporada no Inferno”!

Investigadas as coisas, aqui vai um outro resumo biográfico em jeito de esclarecimento a uma das obras poéticas que mais me marcaram. Esta personagem sim, esta é crível que tivesse escrito a descida aos infernos!

O puto Rimbaud começa a fazer poesia com 15 anos, foge da escola que abominava e torpedeava para desespero do professorado e renega a família bem-posta e bem governada, e foge para Paris. Em Paris vive num submundo de miséria, paneleiragem, vagabundagem e expedientes. Aos 16 anos torna-se amante do grande e consagrado Verlaine, 10 anos mais velho e a quem chama O Velho. A ligação entre os dois provoca um escândalo enorme nos finais do Séc. XIX, até porque o puto Rimbaud se gaba da paneleiragem, da sua arte de espoliação ao Velho, da sua chulice rateira de puto vadio e faz gala da sua loucura iconoclasta. Ainda antes dos 16 anos, o ratão alinha nas drogas e no álcool, sofre a fome e cai na prisão. As disputas violentas com Verlaine que tudo lhe aturava, mas que se negava a abandonar a esposa como o puto lhe exigia, descambam em escândalos públicos que atraem a ira e a condenação pública sobre o Velho.

Para afastar a atenção pública da relação tumultuosa de ambos, Verlaine convence a pequena pega a uma lua de mel em Londres, onde abancam em hotéis de luxo. A puta do Rimbaud continua pouco discreta e acomodada e Verlaine vê-se obrigado a pegar nele e a sair de Londres à pressa.

Abancam então num hotel de Bruxelas, onde o Velho se propunha continuar a dar banho ao mexilhão. Mas o mexilhão nem com as frites se dobrou e arma violentas discussões sobre a mulher do Verlaine, agravadas pela chegada ao mesmo hotel da sogra do velho e com quem este se dava bem. Verlaine dava o cu e cinco tostões pelo puto, mas recusava-se sempre a largar a mulher. A presença da sogra foi de certeza gasolina para a fogueira.

Ao certo, ao certo nunca se veio a saber o que se passou naquele quarto de hotel de Bruxelas e qual o real papel da sogra do Verlaine na coisa. Sabe-se sim, que a certa altura, estando Verlaine e o puto Rimbaud fechados no quarto, se ouve uma violenta discussão rematada com dois tiros de pistola.

Rimbaud sai do quarto a sangrar e com um tiro no braço e foge de imediato para Paris. Verlaine e a sogra seguem atrás do puto para Paris, mas aqui Verlaine é preso por queixa da puta ferida, que alegava temer pela sua vida. Acusado da cusada, Verlaine apanha dois anos de prisão. Nem a sogra lhe valeu!

Ainda ferido, dorido e fodido, Rimbaud volta ao seio familiar para a convalescença e fecha-se num sótão de uma casa nas Ardenas, onde no meio de febres, bebedeiras, remorsos e alucinações desce aos infernos e escreve de enfiada o sublime, encantatório e blasfemo “Uma Temporada No Inferno”. Uma obra-prima absoluta, a que toda a gente verga a mola de Verlaine a Harold Bloom. Curado, parte em viagem sem rumo certo. Nunca mais escreverá qualquer outra obra.

A obra é tanto mais alucinante quanto se sabe que foi escrita por um puto imberbe, com 18 anos de vida, saído há dois anos da escola e do seio familiar. Há ali uma maturidade, uma sabedoria e uma tal experiência de vida, que sem conhecer a vida do cachopo é difícil apreender aquilo.

Como a coisa foi manuscrita a letra de cão e abandonada uma dezena de anos, os peritos ainda hoje discutem se o título da coisa é Uma Estação, Uma Temporada ou Uma Cerveja no Inferno. Fosse como fosse, um é um homem maduro, sofrido, vivido e revoltado que ali está. A poesia é explosiva, magnífica e estranha.

Rimbaud, vagueia então pela Alemanha e Holanda, onde se alista no Exército partindo então para Java, como mercenário. Deserta das fileiras colonialistas holandesas e foge para Chipre e daí para o Iemén e depois para a Abissínia, onde se torna traficante de armas. Volta ao Iémen, onde vive de expedientes e negócios escuros. Após uma travessia muito dura de um deserto, a que acresce um problema de varizes, vê uma das pernas amputadas em Marselha, onde morre aos 37 anos no meio de um sofrimento atroz.

Do genial “Uma Estação No Inferno”, deixo-vos este excerto:

“Ingeri um afamado trago de veneno. - Três vezes bendita seja a resolução tomada! - Queimam-me as entranhas. A violência da peçonha contorce-me os membros, torna-me disforme, atira-me por terra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vede como as labaredas crescem! Ardo como deve ser. Vem demónio!”


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