07/08/06

A Noite das Abóboras Voadoras, por Moita Carrasco

Naquela noite havia festa na aldeia. Com música, bombos e foguetes lança-fogos. O Spock resolveu convidar os compinchas de liceu para uma patuscada de festa farta. Se bem o pediu, melhor a mãe lho fez. Antes da chegada dos convivas, a Adega de cave regurgitava de bolos de bacalhau, croquetes, frango assado, carapauzinhos fritos, caçoilas de carne assada, leitão assado à Bairrada, negalhos, broa caseira, broa doce, azeitonas, pratos de arroz-doce, pudins, bolos, etc, etc.

Por volta das 9 da noite, a maltosa começa a chegar munida das sacrossantas garrafas de litro de tinto Teobar e Rimor. Na altura, a 50$00 a botelha. Além do Spock e segundo as alcunhas da altura respondem presente os seguintes selvagens: Satanás, Múmia, Somítico, Cão, Lusitano, Pilosa, Abutre, Galgosa e Alentejano.

Hoje em dia, a Confraria está organizada e mete respeito ao meter os copos no nariz em cada tasco que passa. Nestes primórdios, nada ia para o nariz. Aliás, nem sequer ia para a boca. A garrafa de Rimor era metida nos queixos, virava-se de cu ao alto e ganhava quem bebesse mais goles sem respirar. A única cegueira que havia era que o pessoal fechava os olhos ao engolir o tinto. Enquanto um emborcava, o resto do pessoal cantava o “Zé Maria”, que corria ao ritmo da religiosa Ave Maria e que rezava qualquer coisa como isto: “- Ó Zé, Ó Zéé, Ó Zé Maria, - Ó Zé Mariaaaaaaaa.” Por vezes acelerava-se o ritmo e cantava-se o “Zé Maria” em ritmo de batuque africano.

A coisa corria bem e o tinto ainda melhor, até que lá pelas duas da manhã, o animal do Luzitano não gosta do “Animal” que o Cão lhe afinfa e manda-lhe um caroço de azeitona. O animal do Cão responde com um carapau frito, que por manifesta falta de pontaria e alta bebedeira, vai aterrar nas fuças do Somítico. O Somítico que à frente só tem pratos de Arroz Doce, mete a manápula na doçaria e manda uma talochada de arroz doce nas fuças do Múmia. Foi o fim da coisa e o início de uma batalha campal sem paralelo desde a Gaugamela de Alexandre, o Grande.

O Spock, que viu desde logo para quem é que aquilo sobrava, tentou conter o pessoal, mas só conseguiu levar com pudim flan nas ventas. Foi demais e foi a perdição total. Saiu da adega da cave e reentrou com mangueira de jacto na mão. Regava refastelado quando levou com uma abóbora gigante num ombro, deixada cair em pontaria romba por um Múmia que já desfilava por telheiros e tellhados. Voavam abóboras, cabaços, pepinos e arroz doce.

Hoje, 26 anos passados de tal doideira ainda se tiram bocados de arroz doce calcinado por detrás das garrafas mais antigas. Na altura, o Spock viu-se obrigado a andar dois dias a lavar paredes, pipas e tonéis que tinham bocados de arroz doce e carapaus incrustados. Do tecto, escorriam pudins como estalactictes e os bueiros entupiram com negalhos atados a guitas de chouriço. As paredes tiveram que ser caiadas de novo. Havia garrafões partidos com abóboras em cima e bolos de bacalhau enfiados nos sítios mais inverosímeis.

Andava o Spock a lavar e ainda teve que a chata da vizinha que se queixava de ter estado acordada toda a noite e estava curiosa: “- Ó, Nino, muito berraram vocês pelo Zé Maria, mas atão, ele sempre chegou a vir ou não?”

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