20/08/06

O Bush gostou d´O Estrangeiro, por Marsol

Li no Público, no DN e até na Bola, não sei se vem no Expresso. A notícia correu todas as agências internacionais e, certamente, foi lida por milhões e milhões de pessoas: o presidente Bush leu e gostou de L`Étranger de Albert Camus. Não sei se a notícia é que Bush tenha lido um livro; ou se é ter gostado de um livro; ou se é ter gostado em particular deste livro, o seminal L` Étranger deste autor especificamente, o francês de origem argelina, ex-comunista, ex-crítico do comunismo e apreciador de futebol, Albert Camus.

Não querendo acreditar que Bush seja tão inepto como dizem – que diabo, o presidente da nação mais poderosa do planeta há-de ler alguma coisinha nem que sejam jornais – inclino-me mais para a terceira hipótese. Ou seja, a notícia é Bush ter gostado de L`Étranger, porque seria de esperar que, em coerência, o detestasse.

L`Étranger, publicado em 1940, em plena guerra mundial, é um livro que tem tudo para ser detestado por Bush. O livro faz uma espécie de unidade com uma outra obra de Camus, o ensaio, O Mito de Sísifo (1941). Ao longo da sua obra, Camus levou a cabo uma espécie de lei de alternância entre ficção e ensaio, uma dupla postulação entre filosofia e literatura que se remetem mutuamente. Primeiro veio L`Étranger (1940), o romance, a ficção, mergulhar o leitor no clima e no sentimento do absurdo; a seguir vem o ensaio (1941), como dizia Sartre, crítico, admirador e amigo de Camus, «explicar a paisagem» (mais tarde encontramos a mesma relação entre a Peste (ficção) e o Homem Revoltado (ensaio).

Seria deslocado entrar aqui em pormenores sobre o conteúdo do Mito de Sísifo e de L`Étranger. Mas a maior parte das ideias defendidas nestas obras por Camus, só por distracção ou incoerência flagrante podem ter agradado a Bush. Uma das ideias e intuições chave do pensamento de Camus é, precisamente, o respeito por todo o existente, a defesa do concreto contra toda e qualquer forma de abstracção. Compreende-se, por isso, que ele seja um dos mais acérrimos críticos da pena de morte, que considera uma verdadeira traição perante a humanidade (o seu ensaio, ainda não traduzido em português, Réflexions sur la Peine Capitale, é um clássico do argumentário sobre a matéria). Meursault, a personagem central de L`Étranger, é, no fim do romance, condenado à morte, mas é bem claro o carácter repugnante desta condenação. Como pode Bush, um dos ideólogos da pena de morte e da administração da guerra, ter lido e ter gostado? Estava distraído? Não lhe explicaram que, embora Meursault declare na hora da sua execução, desejar o carrasco, isso é o sintoma do heroísmo trágico dos heróis de Camus?

É certo que Meursault, o herói de L`Étranger, mata um árabe na praia. Será por isto que Bush adorou o livro? Terá dado asas ao devaneio e pensado que um mundo assim, onde podemos liquidar árabes porque nos apetece, é um mundo perfeito? Se assim é, mais uma vez leu mal. Meursault não é um verdadeiro assassino, mas um inocente – o seu nome é um trocadilho fónico (mar + sol) que indica até que ponto as suas reacções não são mediadas por uma instância consciente. Ele é uma espécie de receptor de emoções sem o filtro da moral convencional e o seu comportamento é o fruto imediato das suas emoções. Ele nada nas águas do mar e é o acto de nadar. Não é outra coisa, só aquele momento presente e concreto sem passado nem presente nem futuro. Ele beija a namorada Maria e é apenas o acto de beijar. Gosta, ama-a – melhor, naquele momento ele é o amor por ela (não se sabe se ainda o será noutro momento). Quando lhe morre a mãe, Meursault está distante e não o sente: «Hoje a mãe morreu, Ou talvez fosse ontem. Não importa.» - eis o começo tristemente célebre de L`Étranger. E no dia do enterro o que o preocupa é o calor abrasivo que sente durante a caminhada até ao funeral. Não pensa na mãe mas no calor. Ele é o que sente, não o que deve sentir. Ao disparar quatro tiros sobre um árabe, num dia de Verão passado na praia, sob o efeito do sol – sempre o sol – isso não é mais que um acto comum em Meursault. Ele não é um assassino que dispara friamente, em consciência, com a intenção de matar alguém – Meursault simplesmente dispara quatro vezes, obedecendo a um impulso, à força abrasiva do sol. Não mata um homem; simplesmente puxa um gatilho quatro vezes. As consequências desse gesto não são sentidas por ele como um crime.

Podemos julgar um ser assim? Meursault é um inocente, uma criança, que não funciona como um adulto normal. Um estrangeiro. Podemos julgar uma criança que não tem consciência do que faz, ou melhor, que não entende o que faz como um acto livre e consciente, mas como uma espécie de impulso fatal e inexorável, ditado por algo mais poderoso (o mar, o sol)? Apesar de sabermos que Meursault cometeu, de facto, uma mostruosidade, não conseguimos antipatizar com ele. Não só, L`Étranger mostra a impossibilidade de julgarmos os outros, como – à maneira do Processo de Kafka – expõe até que ponto a justiça institucional é absurda. Perante a alteridade de Meursault resta-nos o quê? A admiração? A solidariedade? A identificação? Somos todos estrangeiros? Até certo ponto, talvez sim…

Talvez Bush se tenha revisto em Meursault. Se o fez, fez mal. Mas deve saber bem ao presidente da nação mais agressiva do planeta sentir-se uma criança, de vez em quando. Sentir que os julgamentos que possamos fazer dele, são sempre injustos e inadequados. Esqueceu, sem dúvida, que, fundamentalmente, ele está do lado dos outros, não no de Meursault, mas do dos juízes que Camus critica, dos que declaram a pena capital e dos que invocam um Deus abstracto quando só sabemos do concreto.

A notícia deve ser essa: Bush leu L`Étranger e gostou. O amigo da onça que, em seu nome, fez passar esta notícia para o exterior, devia saber o que estava a fazer. Sabia que estava a expor Bush a mais uma incoerência, como se o zé sócrates viesse dizer que gosta muito de ler o Tapornumporco… Não seria notícia se Bush tivesse lido o livro e declarasse que o detestou. Mas ele gostou! Assim, nas entrelinhas daquela notícia, devemos ler: Bush não compreendeu nada de Camus. Leu um livro que defende o contrário do que ele representa e dos seus valores e, mesmo assim, veio dizer que gostou! É mais uma gaffe, uma enorme gaffe hermenêutica de um homem que nem sabe o que lê. É perigoso: estamos entregues a um homem que não sabe ler… Talvez não seja mau, apesar de tudo, que, ao menos, na sua incoerência estrondosa ele tenha ficado a apreciar Camus. Valha-lhe (nos?) isso… Pode ser que ainda haja esperança.

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