08/08/06

Perdoai-lhes Senhor, Que Eles Não Sabem O Que Fazem!, por Zé Critério

Verão de 2002, em Coimbra. O restaurante tinha um aspecto que prometia. Coisa nova, descaradamente franchising, de decoração espanholada, num cruzamento entre um basco Lizarran e um Gambrinus valenciano, de seu nome Paelhas-Portugal. A escolha foi da miúda, com o Moi a resmungar e a Maria a aplaudir.

A ementa prometia, com fotografias magníficas de portentosas paelhas e zarzuelas em caçoilos de barro. Generosas e suculentas, ólálá, como manda a arte de bem fotografar. Pelos cantos da casa coimbrã já se espalhavam quatro ou cinco mesas de comensais com ar satisfeito e prazenteiro.

Pra começar pedem-se umas Amêijoas à Marinheiro. Estavam bem na fotografia, descurou-se o Aviso à Navegação (ver anteriores postas sobre Tratados Taurinos). E elas vêm. Vêm e ficam. Eu olho de lado, mas dou-lhes o benefício da dúvida, isto é, da boca. Só que na boca completa-se o desastre. A coisa está mal, muito mal. Para estreia começamos pior. Adiante, que o Tarik ainda há dias me moeu o juízo por estar sempre a marrar nos restaurantes. Aguentemos Senhor. As amêijoas intocadas são postas num cantinho da mesa.

Vem a Sangria. Ó Diabo, isto está a aquecer! É que de Sangria isto só tem umas coisitas armadas em laranja a boiar, o resto é gasosa com ínfimos vestígios de má vinhaça. Faço das tripas coração e aguento. Metendo na cabeça que aquilo não é sangria, mas sim gasosa, a coisa até se deixa beber. Paciência, até porque a água do luso, não está má. De caminho aviso o meu pessoal que pode haver tourada a seguir, pelo que há que respeitar o manual do escuteiro mirim. A Maria diz que quer ser ela a lidar. A miúda desaprova, gosta mais de ver o pai a tourear.

Vem a Zarzuela.
Do caçoilo de barro, népias, vem a coisa num prato normal. A quantidade nem parecida com a fotografia era, táqueto, e o aspecto denunciava uma negritude mau-mau. A cara da coisa metia medo…
Ia haver tourada.

- Olhe lá ó Migo, isto aqui é o quê?
- Isso é a Zarzuela.
- A Zarzuela?? – Olhe que em comparação com a fotografia da ementa, isto nem família afastada é!

Tunga! Primeira farpa no lombo. O toiro procura um olhar benevolente na mesa, mas népias, a famelga, experiente, já baixou os olhos há muito e permanece em silêncio, à excepção de um outro riso entre dentes da sacana da miúda, que gosta mais disto que de hamburgueres.

Sem apoio e sem razão o toiro não marra e ajoelha:
- Pois, nós pedimos muita desculpa, de facto tem toda a razão, é que as fotografias e as ementas vieram de Espanha, nós somos uma multinacional, peço-lhe que compreenda, já vamos corrigir isto.

Entretanto e lá do fundo, o Gerente, ou um entradote com cara disso embora de avental servil, começa a olhar de lado e a aproximar-se. Como o toiro ajoelhou logo à primeira farpa, e convém sempre usar de alguma magnanimidade deixei o toiro recuar:
- Pronto, está bem, deixe estar e vejam se realmente corrigem as fotografias que são enganosas.
O animal vai-se embora.

Ferra-se o dente numa rodela de lula da Zarzuela e a rodela de lula fica agarrada ao dente. Prá tirar tenho que ir lá com a manápula. Afiambro de seguida na pescada da Zarazuela…
Nem de propósito volta o animal com a Paelha.

Eu olho prá Paelha, olho pró animal, que me vê o dente arregaçado e pergunta timidamente:
- Quer mais alguma coisa?
- Quero sim Senhor! – Olhe pode começar por levar daqui para fora aquele caçoilo de amêijoas à marinheiro, que são completamente inaceitáveis! Entretanto aprochega-se o Gerente de avental, com cara de caso e de poucos amigos…
- …completamente inaceitáveis! – continuo eu -, não deviam sequer ter vindo prá mesa! Conforme pode ver pela totalidade das mesmas que ali estão intactas, aquilo é incomestível, estão secas, sem molho, tísicas, torradas e tanto pela cor como pelo sabor vê-se que não são canónicas e que de facto não poderiam vir prá mesa de outro modo a não ser torradas!

- Canónicas? Pergunta o Gerentezinho, entrando na lide.
- Canónicas, sim Senhor! E não Não são Canónicas não Senhor! Não estão frescas e são indignas de serem servidas! E de caminho levem também a Zarzuela que é coisa que eu conheço e isto nem da família por afinidade é, mas isso ainda se tolerava, agora estas rodelas de lulas onde não se consegue sequer ferrar o dente e que nem se conseguem rebentar com as duas mãos a fazer força e pode crer que eu já tentei, mais a pescada que se não consegue comer pois que foi congelada e recongelada e o único sabor que tem é da água da congelação a que acresce o facto de isto ser uma dose ridícula, supostamente para uma pessoa, no que vêm duas rodelas minúsculas de lulas, meia posta de pescada desfeita e mal saborosa a que se junta aquele minúsculo camarão da costa engelhado. Isto só por brincadeira! Levem se faz favor!

- E de caminho levem também a Paelha em quê se não tocou e como se pode ver a vossa dose individual de Paelha tem meia asa de frango, dois bocadecos de entrecosto ridículos e um mexilhão. O arroz só pela cara está queimado, LEVE TAMBÉM, se faz favor, e de caminho traga-me a conta que nós vamos embora!

A manada leva tudo de bico calado e seguem-se três minutos de intensa conferenciação na copa. O garção volta ao local do crime, diz que a conta não é nada, e pede muitas desculpas, que de facto a multinacional, e coiso e tal, e que estão a começar e esperam vir a fazer melhor, que tinha toda a razão, etc, etc, e que de facto da conta não era nada.

A sacana da miúda só parou de rir já no final da estrada do rio para Penacova, perto do Cota, onde fomos comer uns peixinhos do rio com arroz de tomate e um polvo à lagareiro. Só tive pena de não lhes espetar uma estocada final, que me escapou e que remataria a lide em grande: Devia ter insistido em pagar a água do Luso, que estava boa!


PS: para a clientela que não sabe das anteriores postas sobre tratados taurinos, aqui ficam dois deles, em links do Porco:

TRATADO TAURINO


Tratado Taurino, Volume 3, A Restauração, por RicardoChibanga

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