22/08/06

A Quadrilha Selvagem de Sam Peckinpah, por Mangas

Regressei ao velho sofá. Não deve ter sido por isso que choveu a noite passada, mas ainda assim, deve haver uma relação causa-efeito que me escapa. Foi sempre para ver filmes ou para ler que me sentei naquele sofá escanzelado, o encosto adaptado a velhos hábitos de contemplação noctívaga, nunca protestou um argumento menor ou uma história sem relevância e, sessões de cinema, foram tantas quantas as multidões de personagens que povoaram as imagens dessas nossas madrugadas – ele sempre soube que o melhor cinema vê-se sozinho.

O velho sofá e um western numa noite de Agosto, são sempre lugares seguros para revisitar; A Quadrilha Selvagem (1969), é um dos meus westerns preferidos porque é um clássico fora de tempo e fora-da-lei que sepultou o género. A violência, estilizou-a Peckinpah de forma quase poética em admiráveis sequências slow-motion. A abertura do filme mostra um grupo de crianças que se diverte à volta de dois escorpiões a serem literalmente devorados por milhares de formigas com a complacência inocente daqueles olhos. Os sorrisos espontâneos de meninos e meninas perante o espectáculo da morte. O lado mais selvagem da natureza humana completamente alheado do massacre que se adivinhava nas ruas de Água Verde e no resto do filme. Mais à frente, o ancião mexicano chefe da aldeia dirá: “Todos sonhamos em ser crianças outra vez. Mesmo os piores de nós”.

Extremamente violento, é também um filme de uma honestidade pungente à imagem do seu criador. Os personagens marginais são maus, brutais e impiedosos; os politicamente correctos, também. E Peckinpah não faz nenhum esforço para atenuar os crimes de ambos. A verdadeira dimensão humana dos homens de Pike (William Holden), reside no seu sentido de compromisso e de solidariedade para consigo próprios, e de uns para com os outros. Se com Butch Cassidy & Sundance Kid, George Hill romantiza, desde o início do filme, as personagens de Robert Redford e Paul Newman como exemplo de virtudes, em The Wild Bunch, apenas no final aqueles homens ganham o respeito do espectador: num último assomo de honra e dignidade, o resto do bando decide trocar a segurança de um futuro tranquilo para enfrentar o General Mapache e as suas tropas, tentando resgatar o mais jovem companheiro aprisionado por roubar armas em nome do seu povo, ainda que tal signifique o sacrifício das suas próprias vidas. Um épico selvagem sobre o fracasso ou o mais noir de todos os westerns. A versão original do realizador com imagem restaurada em formato widescreen dá-nos algumas sequências cortadas pelo produtor Phil Feldman sem a autorização de Peckinpah, fundamentais para perceber o perfil psicológico de Pike - o seu passado atormentado, o sentimento de culpa, as suas motivações, a degradação física, a falta de auto-estima e, a liderança, num último momento, interpondo-se a tudo o resto.

Como os fotogramas da ficha técnica à imagem de fotografias de jornal de época, The Wild Bunch é um mergulho na História do velho Oeste americano no ano de 1913 e em tempo de transição. O comboio depressa tornará esquecidos os velhos trilhos de fugas a cavalo, a revolução mexicana trará Pancho Villa ao povo e, algumas décadas mais tarde, a dupla Bonnie&Clyde continuará a estoirar com os cofres dos bancos, mas desta vez as fugas serão em automóveis - modelos evoluídos daquele em que Mapache se pavoneava nas ruas empoeiradas da fronteira. Porém, não foi o progresso que matou o bando de Pike. Foram os velhos códigos de honra de Peckinpah, o artista rebelde, o cão do deserto, o irascível e inseparável companheiro do Jack Daniels, excessivo e genial que nunca brincou em serviço - neste filme assinou o nome centrado no ecrã a seguir à ordem directa de Pike sobre os reféns no banco: “If they move, kill `em!”.

Para além do argumento brilhante em parceria com Walon Green e, da sequência final conhecida como The Battle of de Bloody Porch ser, talvez, a mais poderosa e espectacular sequência de tiroteio em exteriores jamais filmada, os créditos de Peckinpah estendem-se ao conjunto do filme, à provocação e riqueza psicológica dos personagens elevados à condição de anti-heróis, à beleza das cenas mais brutais e sangrentas, à elegia mexicana, ao equilíbrio de toda uma obra que, passados trinta e sete anos após o seu lançamento, não perdeu nenhuma da sua inteligência e grandiosidade.

O velho sofá há-de acabar na fogueira quando eu me apagar, mas amanhã não será a véspera desse dia. Amanhã vou rever o Major Dundee.

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