29/08/06

A Sesta, por Mangas

Ontem fiz a sesta, como sempre faço aos sábados, depois do almoço. Resumi os sentidos, e o mundo em geral, à penumbra envolvente do quarto, depois ao eclipse gradual das vozes humanas que me chegavam lá de fora, até alcançar o silêncio perfeito. Durmo sempre quando faço a sesta. Quer dizer, podia sonhar ou criar monólogos introspectivos comigo próprio naquele estado de torpor semi-acordado, mas nunca fui bom conversador e, quando sonho, tenho uma tendência compulsiva para prever o passado. E para isso basta-me estar acordado.

Não tenho nenhum método para adormecer mais depressa; é apenas um jogo de antecipação. Tento chegar ao sono primeiro do que qualquer pensamento que implique uma perda de tempo e energia. Antigamente, quando fazia a sesta, costumava deixar uma fresta aberta na persiana de uma das janelas. Achava eu que, dessa forma, um traço umbilical entre mim e as vozes que me chegavam lá de fora seria preservado pela luz de baixo volume no quarto. De forma discreta, mas o suficiente para me fazer adormecer e acordar sem me sentir deslocado da espécie. Gesto inútil. Os risos e as vozes rastejantes são verdadeiras fracturas no isolamento absoluto e voluntário de quem se dispõe a fazer uma boa sesta, ou seja, a abdicar temporariamente de si mesmo e dos outros vários em seu redor. Além disso, nunca me sossegaram mais do que o vazio completo de sons ruidosos e claridades luminosas. Mas, quem é que raios necessita da companhia quando se prepara para fazer uma viagem sozinho?

Fazer a sesta é como um mergulho seguro na cor suprimida. Não há tonalidades, influências ou estímulos sensoriais no solitário conforto do vácuo. E a sesta tem sexo: é fêmea. É uma fêmea que nos espera para embalar no colo e apaziguar os males despertos. É como aquelas receitas caseiras de Vick Vaporub que inalávamos no vapor quente quando éramos miúdos, com uma toalha sobre a cabeça: respirávamos logo melhor a seguir e a gripe esmorecia nessa noite. É necessário algum egoísmo e ser cínico o suficiente para se apreciar a sesta e este processo de exílio que lhe é inerente. A brancura serena de tecto quando é tomada de assalto pela escuridão conquistada a um final de tarde. Um lento desmaio em hora de digestão prolongada. A mansidão deste conceito de não-existência pelo adormecimento pleno de corpo e mente. Verbo: desligar. Verbo: abdicar. Ausência, do género: vou ali, já venho, mas não sigam os meus passos nem me aguardem. Não há nada de anti-social aqui: quem treinar a sesta, primeiro como um namoro, depois como a complementaridade viciosa de quem não consegue viver sem o outro, um dia a sesta dir-lhe-á: “És tudo o que tenho. Vá lá, paga-me um jantar e vem dormir comigo.”

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