04/09/06

André, por Pajuçara

Este é o André. Quer dizer, não é, mas podia ser. É igual a outros tantos Andrés que eu conheci nas praias do Nordeste brasileiro. O André tem 16 anos, disse-me ele, mas parece ter 13. Todos os dias apanha caronas nos jipes que percorrem os cerca de 10 quilómetros da praia do Carro Quebrado, Maceió, e tenta ganhar umas gorjas dos turistas. O André foi meu companheiro durante a viagem de jipe. Dei-lhe uma gorja, claro, ele era simpático e acertou em cheio quando me disse que o Simão era o melhor jogador do Benfica.

O André vai e vem nos jipes. Chegados ao ponto de partida, salta em andamento e apanha o próximo. Os guias não se importam, conhecem-no bem. Passa assim o dia, pra cá e pra lá. Com um bocado de sorte talvez saque mais um real ao próximo grupo de turistas e consiga fazer 5 ou 6 reais no fim do dia. Às 19 30, disse-me ele, tem que estar na escola. Ouviu-me com atenção sincera quando lhe disse que devia estudar e tirar um curso técnico, de electricista talvez, que, ouvi dizer, ganha 50 reais por problema de electricidade resolvido.

Há quem goste do André e dos muitos Andrés mais novos e mais velhos que povoam as praias do Nordeste. Há quem não imagine o Brasil sem eles… E há quem os deteste, como detesta mosquitos. É verdade que são muitos e chegam a ser chatos. Ouvi uma portuguesa a queixar-se: que esta gente não trabalha, mas é!, que com estas condições deviam ver o que os portugueses não fariam aqui, nós que somos um povo trabalhador, eles, uns mandriões, vão trabalhar, caraças, sempre a chatearem as pessoas... É verdade que aquela malta às vezes incomoda, nem sempre me apetece comprar artesanato «genuíno», nem água de coco, nem ostras a metade de um euro… Mas em conversa com o André fiquei a pensar que se fosse um deles talvez também eu andasse na praia, não sei…

O estado de Alagoas é um dos maiores produtores de cana do açúcar do Brasil. Percorrendo os 136 quilómetros que separam Maceió de Maragogi, a paisagem é quase na sua totalidade preenchida por fazendas de cana do açúcar a perder de vista. Propriedade de duas ou três famílias, apesar dos inestéticos Sem Terra nos seus bairros de colmo e de barro à beira da estrada. Pergunto ao André o que é que o pai faz: trabalhava na cana, agora vende suco de abacaxi na Ilha da Coroa. Percebo porquê, aprendo com ele: um bom apanhador de cana ganha por dia entre 10 a 30 reais (1 real=2,75 euros) e levanta-se às 3, 4 da manhã para cumprir a jorna que dura até à noitinha. O André tem 16 anos e ganha cerca de 5 reais por dia em gorjetas dos turistas que lhe pagam para sorrir. Um suco de abacaxi, com o respectivo abacaxi, custa 7 reais. Talvez isto explique porque é que há tantos Andrés, novos e velhos, no negócio do «turismo» e não no da apanha da cana. A mim também não me apanhavam na cana, isso é tão certo como o Simão ser o melhor jogador do Benfica…

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