12/09/06

As Duas Mortes de Kashmir “O Gato” Santiago, por Mangas

O que restava de Kashmir “O Gato” Santiago, O Argumentista, o corpo morno, quase apagado, olhos cerrados e, num canto mal iluminado da sala, a ventoinha propagava o seu último suspiro. Que estranho caminho teve ele de percorrer para encontrar um momento sem vozes. A autópsia do cadáver revelou partículas de queijo e bolachas nas unhas. Vestígios de tinta azul no estômago. Presume-se que a sua alma tenha morrido tranquila. Provavelmente teria sucumbido de madrugada, vencida pelo cansaço, sobre uma resma de folhas escritas à mão, após uma longa sessão de sexo oral com a caneta de tinta permanente Monte Blanc. Mas nunca se soube ao certo. O que se veio a descobrir mais tarde foi que naquela noite derradeira tentara ainda acabar uma história na qual fosse protagonista principal, porque lhe faltava falar com autoridade sobre uma sensação genuína, daquelas que conhecesse desde o dia em que vira a luz pela primeira vez. Porém, de todas as sensações autênticas, apenas os cheiros familiares da terra sulcada pela chuva lhe provocaram alguma derivação nas palavras. E isso, deduz-se, foi antes de ter morrido a primeira vez.

As últimas palavras que O Gato Santiago argumentou foram sobre o sul. A caminho de lá. Com meio maço de cigarros no bolso, um saco com alguns livros, um pente, uma escova de dentes e o endereço dela escrita num papel amarrotado. Promete a si mesmo escrever-lhe um postal. Dir-lhe-á, em duas ou três frases, como é a rua principal de uma cidade no deserto ao entardecer onde a luz tropeça nas sombras. O sol, corpos escondidos do calor e da poeira, os cães sonolentos devorados por carraças, as putas à beira das estradas que se cruzaram no seu caminho. Sente latejar o golpe na arcada supra-ciliar. Dói-lhe quando contrai a testa ou fecha o olho desse lado. As gotas de suor que descem pelo rosto até ao peito, lavram minúsculas sensações na pele aquecida. Parece que o ar condicionado do carro se está a lixar para ele, para a situação em si e o deixou completamente exposto ao bafo do inferno. Aspira a ser algo mais do que apaixonado e inútil, como um cadáver segurando um ramo de rosas na banheira. Esquece a dor no sobrolho que começa agora a sangrar, olhos bem abertos para a tempestade que galopava no horizonte. Flores de cacto vergam-se à chuva e cheiram-lhe a ela. Bem que ainda tentou caminhar sobre as águas sem molhar os pés, mas perdeu o poder de argumentação e ficou-se pela intenção das palavras.

Foi por essa altura que o levou a segunda morte, de esguelha sobre a secretária desordenada de folhas escritas à mão, e com o crédito de ainda outras cinco.

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