07/09/06

Axé Toi, por Bossa

Uma das coisas mais pedagógicas das viagens é a possibilidade que elas nos dão de nos confrontarmos com os clichés. Uma pessoa sai da santa terrinha e tem sempre na cabeça aqueles estereótipos que passam de geração em geração sobre a personalidade base dos nativos dos países que visitamos. É sempre assim e é inevitável. No entanto, tenho verificado que os estereótipos raramente se confirmam na realidade. Aliás, é curioso notar que são precisamente as pessoas menos viajadas as que mais estereótipos têm na cabeça. Pelo contrário, quanto mais viajamos mais nos apercebemos da fragilidade dessas ideias feitas.

Quando viajei para Berlim, por exemplo, confesso que ia de pé atrás. Tinha a ideia de que os alemães eram uma espécie de nazis arrependidos, racistas e arrogantes. O cliché fora alimentado durante anos por relatos de pessoas que me garantiam que estava lixado num pais como a Alemanha, devido ao meu tom de pele meio «marroquino». Acontece que me senti muito confortável em Berlim. As pessoas eram educadas e afáveis, de um modo geral, e acabei por rever completamente o cliché do alemão arrogante.

E, para aqueles que acham que os holandeses são uns debochados do caraças, há de tudo. É certo que Amesterdão tem os coffee shops e o red light district, mas são tipicidades. Desengane-se quem pensa que basta pôr os pés em Central Station para ser logo assediado por amazonas louras descontroladas e freaks a venderem hash barato.

E os Espanhóis? O medo que eu tinha dos espanhóis, os nossos inimigos de estimação segundo os manuais da escola primária e os clichés do portuga comum. Afinal não são nada disso, nuestros hermanos. São até um exemplo para nós, com a sua paixão, a sua alegria de vida, o seu frenesim…

Estas férias viajei para o Brasil. Um dos clichés mais associados ao povo brasileiro é o de que se trata de um povo alegre, feliz, sempre em euforia. De entre os brasileiros o Baiano é o mais brasileiro de todos… Mas é curioso: uma pessoa chega à Baía e sente imediatamente que os baianos fazem um esforço para confirmar essa imagem. Digo bem: um esforço, porque mais que alegria genuína, o que senti foi o esforço que eles faziam para confirmar essa alegria.

O baiano tem qualquer coisa de artificial, aquela alegria é exagerada… Imaginem que acabam de chegar a Porto Seguro (no sul da Baía) às quatro da manhã, horas portuguesas, depois de uma viagem de 8 horas mais quatro de atraso do voo. Obviamente, o que querem é dormir. No entanto isso não é tão claro para os nossos anfitriões. Sou metido numa camioneta que faz o transfert do aeroporto para o hotel e ligam a aparelhagem que berra uma música intoleravelmente frenética: axé! Este tipo de música haveria de se me tornar familiar. O guia grita:
- Alegria, alegria, galera. Tá todo mundo triste, coméqué, galera? Alegria. Estamos no Brasil, aqui não tem tristeza, não…
Isto é normal? Estes mesmos guias, seu Anderson e seu Dorival, soube-o depois, vêm de uma directa, uma vez que tiveram que trazer um grupo de turistas ao aeroporto para recolher o novo grupo – onde me incluo - que acaba de chegar. Evidentemente, tudo isto é alegria plastificada, de conserva, para alimentar clichés na cabeça de turistas europeus. Plastificada e burra, já agora, não era preciso ser muito inteligente para entender que àquela hora, depois de um voo cansativo, o que uma pessoa quer é que o deixem sossegado.

Ao longo da minha estadia no Brasil, principalmente em Porto Seguro, fui-me apercebendo que o comportamento artificial dos guias turísticos vendedores de alegria, não é assim tão excepcional. O baiano parece estar sempre em pleno estado de euforia. Ora, acontece que eu não acredito na alegria perpétua. Não que seja um pessimista nem um deprimido, pelo contrário, mas desconfio de gente tipo merche romero, sempre a gargalhar por tudo e por nada. Ninguém está sempre a rir às gargalhadas, que diabo, não dá… Por isso perguntei-me muitas vezes a mim próprio o que se esconde por detrás daquela alegria… Faltou-me ver, ou vi muito raramente, o espaço intermédio entre a euforia excessiva e a pobreza triste ou agressiva do baiano. Não há nada no meio? Desconhecerá o brasileiro comum a serenidade que encontramos nas canções dos seus conterrâneos, do Caetano e do Chico, ou na bossa nova do João Gilberto e do Vinícius? É estranho… Eu chego às praias fantásticas de Caraíva ou às florestas da Coroa Vermelha e aquilo é lindo e dá-me uma sensação de tranquilidade absolutamente fantástica…. Mas contacto com o nativo e apanho com uma injecção de axé que não me aguento. Nem os vendedores de cds piratas da praia têm Caetano, raramente têm Chico e bossa nova nem vê-la. O que eles ouvem é axé. Axé por todo o lado, para meu desespero.

O axé é a música que melhor exprime esta falsidade existencial. Tem excesso de ritmo, excesso de movimento, não chega a ser uma dança, é mais ginástica aeróbica que outra coisa qualquer. As letras apelam invariavelmente à euforia: «Sou guerreiro, sou brasileiro, sou praieiro, sou solteiro. Que mais quero?», canta uma mulata, qual Shakira tropical em versão axé, num Luau na Ilha dos Aquários. Como se a felicidade fosse uma dádiva caída do céu… Oferecida e não conquistada. Se calhar até é, em algum grau, mas estas letras, este ritmo frenético do axé, soam a falso. Isto é feito para esquecer a realidade, para provocar uma embriaguez virtual. Eu vejo nesta alegria demencial, precisamente o seu oposto, algum desespero. Vejo na alegria eufórica e permanente do baiano, um lado desesperado, aflito. Não que a alegria seja má. Mas quando ela é uma máscara… Que esconde o baiano? Que se esconde por detrás das cores fortes dos trópicos? S. Paulo? Rio de Janeiro? Cidade de Deus?

Pic: http://www.grupoaxebahia.com/graphics/fotos/67.jpg

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